Capítulo 16
Nossos pais voltaram no fim da tarde, carregando a compra do mês das três casas. Era a nova tática para economizar: comprar tudo no atacado e dividir. Para nós, significava apenas mais trabalho.
Pedro e eu descemos para ajudar, enquanto Mariana seguia em silêncio, como sempre fazia quando era contrariada. No dia seguinte, voltaria a falar comigo como se nada tivesse acontecido, mas por ora, fingia desinteresse.
Assim que chegaram, começou a trabalheira. Caixas e sacolas abarrotadas de arroz, feijão, macarrão, açúcar, óleo… um estoque que parecia infinito. Como sempre, ninguém perguntava se queríamos ajudar, só jogavam a função para cima da gente. Descarregar o carro já era um saco, mas o pior era separar tudo, dividir certinho para cada casa, reempacotar e enfiar tudo de volta no porta-malas. Um trabalho interminável. O calor só piorava as coisas, o suor grudava na pele e cada saco de arroz parecia mais pesado que o anterior.
E eu ali, exausta, pensando que há algumas horas estava de pernas abertas, esperando Mariana tomar uma atitude. Agora, estava separando pacote de macarrão, como se minha vida fosse essa.
— Isso aqui é um inferno… — murmurei, empurrando uma caixa com o pé.
Pedro riu, enxugando o suor da testa.
— Eu podia estar fazendo tanta coisa melhor agora…
Mariana lançou um olhar rápido para mim, mas continuou quieta.
O serviço acabou, Pedro foi embora com o pai e Mariana com a mãe. Essa, como esperado, saiu sem nem me olhar, ainda puta porque eu a provoquei. Mas eu já conhecia bem aquela rabugenta, amanhã ia falar comigo como se nada tivesse acontecido.
Terminei de guardar as compras, jogando as caixas fora, quando ouvi um grito vindo do portão.
— Tô entrando!
A voz era inconfundível. Carla. Claro que era ela. E pelo jeito já tinha superado o esporro que levou.
Ri de nervoso. Eu e Carla ainda tínhamos um assunto pendente. Depois do que rolou na lavanderia, nunca mais conversamos sobre aquilo. Mas ela entrou com a cara mais lavada do mundo, cumprimentando minha mãe com uma falsidade impecável.
— A bença, tia!
— Deus te abençoe, filha… e muito! — respondeu minha mãe, torcendo a cara. Ela não era boba, sabia que Carla aprontava.
— Oi, prima, quero falar com você!
Meu estômago revirou. O que ela queria comigo? Não dava pra simplesmente deixar aquilo pra lá? Mas era a cara da Carla insistir quando queria alguma coisa. Ela se fazia de santinha na frente da minha mãe, mas eu conhecia bem aquele olhar.
“Melhor um inimigo de cada vez”, pensei, respirando fundo para disfarçar o nervosismo.
— Vamos pro meu quarto, prima? Vou pegar uma toalha pra tomar um banho — falei e saímos antes que minha mãe pudesse farejar alguma coisa.
Nem deu tempo de entrar no quarto e Carla já vomitou o assunto sem prelúdio nenhum, sem rodeios, como se estivesse falando do clima.
— Prima, o meu namorado tá muito doido com você, não fala em outra coisa.
O choque me travou no lugar. O sangue sumiu do meu rosto, e a vergonha subiu quente até a nuca. Meu estômago revirou, e meu coração acelerou como se eu tivesse sido pega fazendo algo errado.
— O quê?! — minha voz saiu num fio, baixa demais.
Mas Carla não me deu trégua, nem percebeu — ou fingiu não perceber — o desespero que me consumia.
— A gente não se falou mais depois daquilo… — ela continuou, me analisando, o olhar cheio de algo que eu não sabia decifrar. — Queria saber como você tava.
Engoli seco. Agora, ela parecia estar se segurando para não dizer tudo de uma vez.
— Tou bem, prima… — soltei apressada, tentando fugir do assunto. — Aquele dia eu meio que agi por impulso. Esquece isso, pode ser?
Ela inclinou a cabeça, os olhos escuros cheios de malícia, um sorrisinho brincando nos lábios.
— Então… é que não dá né!
O silêncio que veio depois me apavorou. Carla fez uma pausa muito longa, dramática até. Eu já conhecia esse jeito dela, quando queria provocar, quando queria me fazer ficar na palma da mão dela. Meu peito subia e descia rápido, como se o ar tivesse ficado mais pesado.
— Ele propôs uma parada interessante… — ela finalmente soltou.
Meus dedos se fecharam tão forte que minhas unhas machucaram as palmas das mãos.
— Que parada? — perguntei baixinho, já arrependida de ter dito qualquer coisa.
Carla sorriu. Lento, calculado. Aquele tipo de sorriso que sempre significava problema.
— A gente queria te chamar pra continuar aquele lance… Tu topa?
A pergunta pairou no ar como um soco no estômago. Meu corpo inteiro gelou. Minhas pernas ameaçaram fraquejar. Minha boca abriu e fechou algumas vezes, mas nada saiu.
— Prima… eu… eu… — as palavras morreram na minha garganta. — Eu sou virgem.
Carla piscou algumas vezes, surpresa. Depois, jogou a cabeça pra trás e riu alto, um riso quase debochado.
— Sério? Mentira! Tu vai meter a virgem pra cima de mim, garota?!
Ela disse isso alto demais. O suficiente pra minha espinha congelar.
— Cala a boca! — sibilei, em pânico, olhando em direção à porta.
Mas Carla só riu mais, se divertindo com o meu nervosismo. Eu corri até a porta para ver se estava trancada, como se passar a chave impedisse também o som de sair.
— Sim, porra, eu sou cabaço e daí? — falei brava tentando me impor.
— Eu simplesmente não acredito… ela realmente está descrente agora pensando.
— E assim, eu tou saíndo com uma carinha aí também e aquilo lá não vai mais acontecer prima…
Carla não pareceu gostar da minha negativa. O sorriso sumiu, e algo mais sombrio tomou conta do seu olhar.
Ela começou a caminhar devagar na minha direção, e um arrepio gelado subiu pela minha espinha. Conhecia aquele jeito. Eu já apanhei muito dela quando era mais nova. Era sempre assim: primeiro vinha a aproximação lenta, a intimidação, depois os tapas, os puxões de cabelo e os hematomas nas pernas.
Meu corpo reagiu antes da minha mente, os pés começando a recuar, buscando uma rota de fuga. Mas não havia para onde correr.
— Foge não… — ela sussurrou, e seu tom foi suficiente para me travar inteira.
Ela parou bem na minha frente, o rosto tão perto que senti sua respiração quente contra minha pele. Sua mão agarrou a costura da minha bermuda, puxando de leve, sem pressa, sem tirar os olhos de mim. Meu coração parecia um tambor dentro do peito.
E então, do nada, ela enfiou a mão entre minhas pernas. Com força.
Engasguei com o susto. O corpo inteiro se encolheu com o toque bruto. Eu estava suja do trabalho, peguenta de suor, a pele seca o suficiente para o atrito do toque me incomodar. Mas ela não se importou. Seus dedos começaram a fuçar entre os meus lábios, como se procurassem uma entrada, como se minha reação não tivesse a menor importância.
— Eu vou gritar! Tira a mão daí! — minha voz saiu trêmula, mais medo do que raiva.
— Grita — ela debochou, sem parar o que fazia. — Vai falar o que pra sua mãe? Que eu te dei uma dedada na boceta?
Me calei na hora. O pânico subiu, quente e sufocante. O que eu diria? Como eu explicaria isso sem acabar me encrencando junto?
— Para, Carla… por favor, isso é ruim. Eu não gosto.
E era verdade. Não havia nada de excitante naquilo. Eu me sentia invadida, vulnerável. Carla sempre fez bullying comigo, e agora só estava mudando a categoria do assédio.
Tentei me desvencilhar, mas ela era mais forte. Seu corpo bloqueava minha saída, sua mão insistia entre minhas coxas, e eu me senti… pequena. Como quando era criança, quando ela roubava meus brinquedos, quando me empurrava no quintal e ria enquanto eu chorava.
— Olha só… — ela murmurou, a voz quase suave, como se estivesse me acalmando. — Vou só apertar o botãozinho pra ligar a safadinha que tem dentro de você e te perguntar de novo.
Foi aí que, por algum motivo, achei graça. O jeito como ela falou, a seriedade bizarra naquelas palavras ridículas… eu ri.
E quando ri, meu medo foi toda embora.
— Tira a mão daí, porra — falei de novo, mas agora mais calma.
E, surpreendentemente, ela tirou.
Mas, antes que eu pudesse respirar aliviada, levou o dedo ao nariz e cheirou.
— Boceta fedida, prima… tu não lava essa Larissa, não?
Minha cara pegou fogo.
— Porra, eu tava carregando, descarregando e separando compra, cacete!
Eu poderia explicar melhor. Poderia dizer que, antes de tudo isso, estava metida em outras coisas que contribuíram para aquele cheiro peculiar. Mas Carla não precisava saber disso.
Ela riu. Aquela risada dela, maldosa, cheia de algo que eu não sabia nomear.
Eu engoli em seco. Meu corpo ainda tremia, mas eu precisava sair dessa com alguma dignidade.
— Carla… — respirei fundo. — Vou pensar, tá? Quando eu resolver, te falo.
Ela me olhou por um instante, como se analisasse minhas palavras. E, pela primeira vez, pareceu satisfeita.
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