Capítulo 19
Depois do telefonema do meu pai, passaram-se três dias muito estranhos. Sabe quando tudo está muito silencioso? Algo estava cheirando mal. Eu não sabia o que ia acontecer, mas o clima estava esquisito demais.
O Matheus, que deveria estar me pentelhando querendo mais, simplesmente sumiu. Mariana, que já teria aparecido com alguma fofoca ou safadeza, evaporou. O moço do ônibus, do nada, me mandou mensagem dizendo que tinha que viajar e ia ficar uma semana fora. Pedro entrou numa de trabalhar com o pai e agora só falava de motos. Trabalhou três dias e já achava que ia ter dinheiro para comprar uma. Insuportável! E a Carla… ah, essa era eu que estava fugindo dela. A ideia de fazer um ménage com ela e o namorado me deixava curiosa, mas, ao mesmo tempo, morrendo de medo. Eu ainda era cabaço e, sinceramente, não sabia se ia aguentar o tranco do cavalo do namorado dela.
Mas, no meio de tudo isso, tinha os problemas sérios: meu pai e meu padrasto. Eu fui falar merda para minha mãe, que já estava mega preocupada, e não me toquei que meu pai poderia fazer uma bela cagada! Agora eu estava com um pé atrás, sem saber qual seria o próximo movimento deles.
Então, fiz uma lista mental de tudo o que precisava resolver. Eu não era muito de planejamento, mas, dessa vez, precisava de uma estratégia. A primeira da lista? Mariana. Porque ela era minha escudeira, minha principal aliada. Com ela do meu lado, o bonde estaria formado, e eu saberia exatamente o que fazer.
Liguei para ela. O coração já deu aquela acelerada básica enquanto o telefone chamava. Mariana sempre atendia rápido, mas dessa vez demorou. Quando atendeu, a voz veio seca, meio ríspida.
— Garota! Até quando você vai fugir de mim? — soltei, tentando parecer leve, mas já sentindo um peso na barriga.
A resposta veio afiada, do jeito que só ela sabia fazer.
— Eu tô puta contigo, só estava de saco cheio de ficar chupando dedo na sala e você me esculachou!
Puta merda…
A lembrança bateu como um tapa. Eu tinha sido babaca com ela, e agora me sentia um lixo. Mordi o lábio, apertando o celular contra a orelha, tentando pensar em algo que desfizesse aquela merda.
— Prima, me perdoa, por favorzinho? Perdoa vai? Vem aqui pra casa?
Silêncio.
— Não sei, tô chateada, cara!
Ai, caralho! Não podia deixar ela assim. Se Mariana começasse a remoer, era capaz de me deixar de castigo emocional por tempo indefinido.
— Olha, eu faço seu pé! Lixo, tiro cutícula, pinto as unhas e ainda dou uma massagem!
Eu era foda nisso e ela sabia. Minhas unhas estavam sempre impecáveis. Tinha uma pequena fortuna investida em esmaltes e acessórios. Eu queria muito poder trabalhar no salão da minha tia nos finais de semana pra levantar um dinheiro.
Mas nem isso amoleceu ela.
— Minha unha tá feita, Júlia!
E foi aí que eu meti os pés pelas mãos. Sem pensar, sem filtrar, só pra tentar quebrar o gelo de uma vez.
— Tá… então… eu chupo a sua ximbica!
— O quê?
O silêncio veio carregado, pesado como uma nuvem de tempestade. Meu estômago embrulhou na hora.
Mariana ficou muda por um tempo que pareceu uma eternidade.
Merda. Por que eu falei isso? Era só pra fazer ela rir! Uma piada, caralho! Mas agora ela tava calada, e eu não sabia o que fazer.
Quando ela voltou a falar, a voz veio estranha, diferente. Não consegui identificar se estava surpresa, curiosa ou irritada.
— Idiota… — a palavra saiu num tom indecifrável. E depois: — Eu vou aí pra gente conversar.
E desligou.
Fiquei parada, olhando pro celular na minha mão como se ele fosse me dar uma explicação. Meu coração tava martelando, mas ela vir aqui era um avanço. Mariana sempre vinha pra cá. A casa dela era um ovo, e ainda tinha aquele irmão dela, o tal do fracassado que era casado, mas vivia lá. Minha mãe dizia que a mulher dele batia nele. Vai entender.
Isso não fazia parte do meu plano, mas eu precisava lidar com a minha mãe pra ver se ela soltava alguma coisa. Desci pra avisar que Mariana vinha. Nunca precisei avisar esse tipo de coisa, mas queria puxar assunto e sondar o clima.
Andei pela casa e percebi que minha mãe ainda estava no quarto.
— Mãe, Mariana vai vir pra cá? — falei, já abrindo a porta sem bater.
Minha mãe ainda estava deitada. E já passava das dez da manhã.
— Tá bom, filha. Não tem problema. Agora fecha a porta.
A voz dela veio meio arrastada. Estranhei na hora.
— Por que a senhora ainda tá deitada?
Ela soltou um suspiro, sem nem se mexer muito debaixo do lençol.
— Tô cansada, não posso descansar mais umas horinhas, não?
Aquilo me deu um arrepio estranho. Não fazia sentido. Minha mãe sempre acordava cedo, e agora tava ali, ainda maquiada e enrolada no lençol até o pescoço? E justo hoje, que já tava um calor do inferno?
Meus olhos varreram o quarto, procurando alguma pista. Nada fora do lugar. Nada que me desse uma resposta. Por um segundo, pensei em perguntar mais alguma coisa, insistir, mas acabei desistindo. Se tinha algo ali, ela não ia me contar.
Fechei a porta e fui tomar conta da minha vida.
Fui para a cozinha comer alguma coisa e procurar algo para descongelar pro almoço. Melhor adiantar as coisas pra minha mãe, já que ela tava estranha. Enquanto isso, aproveitei pra passar uma vassoura na casa e dar uma olhada no banheiro. Minha mãe detesta casa suja, e eu meio que herdei isso dela. A casa vivia cheia de gente que aparecia sem avisar, então manter tudo em ordem era um trabalho de período inteiro.
O tempo passou, e mais tarde eu estava na lavanderia, pendurando umas roupas no varal, quando ouvi aquela voz familiar ecoando da entrada:
— A bença, tia!
Mariana.
Dei um último ajuste nas peças, sentindo aquele friozinho na barriga, e fui lá na sala. Ela estava parada no meio do corredor, de shortinho e camiseta larga, mexendo no celular, como se estivesse ali por acaso. Mas eu sabia que não estava.
Sem nem dar tempo dela reagir, agarrei o braço dela e puxei.
— Vem, quero falar contigo!
Ela nem resistiu. Riu baixo e me seguiu pro meu quarto. Era agora ou nunca.
Quando entramos, nada foi dito. Apenas um abraço de perdão aconteceu, longo, apertado, como se nenhuma palavra fosse necessária. Ficamos assim por um tempo, balançando suavemente, como uma dança sem música. O sentimento de amar e ser amada era bonito demais, e eu senti uma lágrima querendo escapar, mas engoli. Ela era a última pessoa no mundo que eu queria magoar. Tudo que passei na minha vida, Mariana esteve ao meu lado. Se ela ficasse triste por minha causa, eu sofreria junto, e isso me doía mais do que qualquer outra coisa.
Quando o abraço terminou, ela encostou os lábios nos meus num estalinho leve, um carinho que já era comum entre nós. Natural, sem estranheza, sem hesitação.
— Te amo, prima. Te amo muito, tá bem?
— Eu sei disso, sua sebosa.
E rimos as duas, como se aquele momento fosse capaz de apagar qualquer mal-estar.
Mas, claro, Mariana nunca deixava nada passar.
— Mas e aí?
— E aí o quê? — perguntei, me jogando na cama.
Ela se encostou na parede, braços cruzados, um sorriso safado no rosto.
— Cadê?
— Cadê o quê, Mariana?
Ela rolou os olhos, impaciente.
— Você me prometeu uma coisa!
Franzi a testa, tentando lembrar.
— Você disse que tava com a unha feita, mulher!
— Não essa coisa… a outra coisa depois disso!
Meu cérebro deu um branco total. O que diabos eu tinha prometido?
— Que coisa? Fala logo!
Ela se inclinou na minha direção, os olhos brilhando de malícia, a voz mais baixa, como se tivesse guardando um segredo precioso.
— Você falou que ia chupar meu bucetão!
E caiu na risada.
Mas eu não ri.
Porque eu ia mesmo.
O próximo post é conteúdo exclusivo para Assinantes
Não abandone essa história
Descubra o que acontece em "Descobri que de quatro é mais gostoso!" e tenha acesso a todo nosso conteúdo premium.
Assinatura mensal
Cancele a qualquer momento