Capítulo 22
Terminamos o almoço e tomamos conta das coisas da cozinha. Mariana e eu trabalhamos feito formiguinhas, deixando tudo arrumado pra minha mãe não ter que levantar um dedo. Enquanto organizávamos as coisas, fui contando para as duas a história do moço do ônibus. Claro que, na versão que minha mãe ouviu, não tinha nada de safadeza. Eu não era burra.
Depois que tudo estava limpo e guardado, fomos para a piscina. O sol estava forte, então ficamos só de biquíni, lagarteando ali, esperando alguém ter coragem de entrar na água. Mas tava suja. Eu não sabia limpar, e, mesmo se soubesse, demorava uns dois dias pra clarear. Quem fazia isso eram meus irmãos, e eu não ia meter a mão naquilo pra acabar fazendo merda.
Ficamos ali, jogadas no chão quente, esperando o sol secar os cabelos do banho. Dessa vez, não teve pegação na troca de roupa. Não sei por quê, mas simplesmente não passou pela minha cabeça, e pelo visto, nem pela dela. Talvez ainda estivéssemos meio esquisitas depois do que rolou mais cedo. Ou talvez o sol estivesse fritando demais nossos neurônios.
Mariana, deitada de barriga pra cima, de repente virou a cabeça na minha direção e soltou do nada:
— Júlia, me responde uma coisa.
Já até sabia que vinha merda.
— Já sei. Tu quer chamar os meninos pra cá, né? — atirei, sem nem deixar ela terminar.
Ela riu.
— Porra, tu lê mentes agora?
— Não, só te conheço. Mas e aí, qual o plano? Minha mãe me mata se eles derem com a língua nos dentes.
— A gente chama eles e diz que apareceram de surpresa. Sua mãe sabe que eles vivem aqui mesmo.
Pensei por um segundo. Era plausível.
— Pode funcionar… Mas eu tô com medo do Pedro querer me comer.
Ela riu alto.
— Uai, mas você não queria dar pra ele? Qual o problema agora?
Suspirei, olhando pro céu. Eu mesma não sabia direito qual era o problema. Ou talvez soubesse e só não quisesse admitir.
— Sei lá. O carinha do ônibus tá na minha cabeça agora. O Pedro é inexperiente, e o Matheus… — revirei os olhos. — O Matheus é uma múmia.
Mariana arregalou os olhos e sentou rápido, me encarando.
— TU PEGOU O MATHEUS MESMO?! O que rolou?
Me arrependi na hora de ter falado. Gelei.
— Ahhhmm… Fico com vergonha de contar.
— Fala, buceta! Tu deu pra ele?
— Não, porra! Rolou uma chupação doida.
— Doida boa ou doida ruim?
Suspirei, revirando os olhos.
— Doida ruim. Ele é muito ruim, prima. Esquisito. O quarto dele fede.
Mariana fez uma careta.
— Ai, não rola mesmo. Mas então… Tu não quer mais dar pro Pedro?
Me encolhi, enfiando a cara no braço, meio sem graça.
— Acho que não. Não sei. Na hora, talvez… Mas eu fico insegura, sabe?
Ela me olhou de canto, rindo.
— Então deixa eu entender… Você não quer dar pro Pedro, o Matheus é um fracasso… Então quem é que vai tirar essa cabaçaria de você, hein?
Me virei pra ela, dramática.
— Vou morrer virgem, Mari! Aceita!
Ela gargalhou alto, me batendo de leve na coxa.
— Ah, vai nada. Certeza que o moço do ônibus resolve isso rapidinho.
Eu ri também. Era verdade.
— E você? Quer dar pro Otávio?
Ela suspirou, revirando os olhos e jogando a cabeça pra trás.
— MUITO! Puta que pariu, toquei umas cinquenta só essa semana pensando nele.
— Exagerada! — revirei os olhos, rindo.
Mas, na real, eu entendi perfeitamente.
Ela ficou quieta por um segundo, parecia pensar em algo, e então soltou tudo de uma vez, sem rodeio:
— Mas Júlia, tu é muito puta mesmo! O que houve? No mesmo mês tu pegou o Pedro, o Matheus, o cara do ônibus e ME PEGOU! Eu esqueci de alguém?
Ela não tinha esquecido de ninguém. Só não fazia ideia de que nessa lista ainda tinha a Carla e o namorado dela… E muito menos que o meu padrasto, que tava sumido, também fazia parte desse rolo.
Engoli seco, fingindo que era brincadeira.
— Sei lá, prima… As coisas começaram a andar tão rápido do nada que nem eu tô entendendo, cara. Às vezes eu paro e fico assustada. Antes eu não tinha ninguém e agora eu posso escolher quem e o que fazer com eles. Esquisito… Mas, mano, eu tô com um tesão tão doido, sei lá! Deve ser feromônio, né?
Mariana soltou um riso nasalado e revirou os olhos.
— Tá, mas não me atrapalha com o Otávio hoje, não! Eu vou ficar no seu quarto e tu vai pra sala, beleza? Se não for fazer nada, nem aparece lá. Firmezinha?
Bufei.
— Tá, caralho! Eu não vou empatar tua foda, não!
Ela riu, satisfeita.
O sol estava forte, e de tempos em tempos interrompíamos a conversa para ir no chuveirão e nos molhar. Quando eu arrastava o biquíni pro lado, dava pra ver as novas marquinhas de bronzeado se formando. Eu adorava aquela linha de pele branquinha contrastando com o resto. Era bonito.
Foi então que Mariana soltou do nada:
— Prima… tem umas paradas que eu queria fazer contigo.
Levantei a cabeça, desconfiada.
— Que parada?
Ela mordeu o lábio e hesitou um pouco antes de falar.
— Manja tesourinha?
Me segurei para não rir.
— Mariana, isso é lenda! Coisa de filme pornô, cara! Te enganaram.
Ela cruzou os braços e revirou os olhos.
— Não é lenda, não! A Raíssa sapatão lá da escola falou que faz direto com a namorada.
Fiquei quieta por um instante. Será? Eu sempre achei que era coisa inventada, mas… se a Raíssa, que realmente pegava mulher, disse que fazia, então devia ter um fundo de verdade.
— Vamos fazer depois? — soltei, de repente curiosa.
Ela olhou pra mim e riu.
— A gente tenta, ué. Tu quer agora?
Arregalei os olhos.
— Tá maluca? Minha mãe deve estar deitada no quarto! Vai acabar ouvindo a gente!
Ela riu e jogou um pouco de água em mim.
— Então aproveita e liga pro Otávio logo. Foda que o pai do Pedro deve saber que a gente vai estar sozinhas aqui. A gente podia falar com a tua mãe antes, não?
Eu fiz uma careta. Era arriscado… Mas, pensando bem, talvez fosse o melhor plano. Se minha mãe descobrisse depois, ia ser um inferno. Pelo menos assim, a gente tentava uma autorização oficial. Então lá fomos nós, semi-nuas, de biquíni molhado, direto pro quarto da minha mãe. Parecia até um esquadrão de resgate, só que, em vez de salvar alguém, a missão era conseguir uma permissão pra putaria à noite.
Bati na porta e entrei com toda a ousadia.
— Mamãe linda do meu coração!
Ela nem tirou os olhos do celular.
— NÃO, JULIA!
Eu arregalei os olhos, fingindo indignação.
— Não falei nada ainda!
Minha mãe riu. Ela sabia EXATAMENTE que eu tava tramando alguma coisa.
Mariana, tentando segurar a risada, jogou os cabelos para trás e cruzou os braços, como se fosse a porta-voz de um pedido extremamente sério.
— A gente pode chamar os meninos pra vir jogar Uno com a gente hoje? Só pra fazer companhia…
Minha mãe levantou os olhos do telefone e estreitou o olhar.
— Que meninos?
Olhei pra Mariana. Mariana olhou pra mim. O ar ficou pesado por um segundo.
— Só quem joga é o Pedro e o Otávio… — murmurei, tentando parecer inocente.
Minha mãe franziu a testa, desconfiada.
— Hummm… Seus primos? — Ela nos analisou, como um detetive farejando uma mentira.
Eu abri um sorriso angelical. Mariana sorriu também. Duas almas puras e inocentes.
Ela suspirou, ainda desconfiada, e finalmente decretou:
— Pode. Mas! — levantou o dedo, nos cortando antes de comemorarmos — Bota os colchões no sol agora, porque aqueles trens tão fedendo a guardado. E não quero ninguém dormindo no meu quarto, ouviram? Eles dormem na sala, escutaram?
Eu e Mariana piscamos, confusas.
Foi… fácil demais.
Olhei pra minha mãe com uma sobrancelha levantada. “O que ela tava tramando? Cadê o esporro? Cadê a ameaça de morte?”
Mas eu não ia reclamar. Mariana, então, nem esperou pra ver se era pegadinha. Deu as costas na mesma hora, já discando um número no telefone.
A foda estava armada.