Eu detesto cigarros. Não fumo, não gosto do cheiro, e me incomodo só de ver alguém tragando perto de mim. Quando me pedem para comprar, então, fico puta — foi exatamente o que aconteceu naquele dia, por causa do meu pai.
Estava a caminho do mercado quando ele me pediu dois maços. Relutante, concordei com um aceno curto, mas por dentro já reclamava. Fiz minhas compras rapidamente, tentando me livrar logo da obrigação, e na saída decidi ir até a velha banca da esquina. Chamá-la de “banca de jornais” era, na melhor das hipóteses, uma gentileza: há muito tempo deixara de vender jornais ou revistas e se transformara numa loja abarrotada de doces coloridos e quinquilharias da China — objetos baratos, aparentemente inúteis, mas irresistíveis pelo preço.
A moça atrás do balcão parecia quase engolida por uma muralha de potes de balas e pirulitos. Olhava para o celular com concentração absoluta, ria contidamente rolando o feed de alguma rede. Enquanto me aproximava, não pude evitar um olhar curioso pelo espaço. Procurei por revistas, apenas por hábito, mas não vi nenhuma. Percebi, com certo espanto, que já não lembrava qual tinha sido a última revista que comprei — e se aquilo ainda era algo que as pessoas faziam.
— Moça, bom dia. — Falei com um tom contido, já meio ansiosa com a possibilidade dela achar que eu era fumante.
Ela levantou os olhos brevemente.
— Opa. — A resposta veio num tom arrastado, indiferente. — Vai querer o quê?
Hesitei por um segundo. Não era exatamente má vontade, pensei, apenas um mau humor de quem trabalha precarizada numa caixa de metal embaixo do sol.
— A senhora me dê dois maços de cigarros, por gentileza? — pedi, forçando um sorriso que eu esperava disfarçar meu desconforto.
Ela assentiu sem dizer nada, virou-se com agilidade e começou a procurar a marca que eu tinha mencionado. Seus movimentos eram rápidos, precisos, quase automáticos. Sem que eu notasse, já havia registrado a venda num pequeno computador e segurava a maquininha para pagamento, digitando com destreza.
— Os quatro maços dão trinta reais, senhora. — disse, impaciente,parecia querer que eu sumisse logo dali.
Fiquei confusa.
— Moça, eu pedi dois, não quatro. — Minha voz saiu triste, quase um pedido de desculpas antecipado. Ela teria que desfazer tudo e começar de novo. Eu já estava pronta para lançar um “desculpa mesmo, viu?”, mas nem tive tempo.
— Ai, caramba… — murmurou ela, eu tive a certeza que ela queria era xingar.
Sem me olhar, ela começou a cancelar a venda com uma expressão que deixava claro: naquele momento, eu era a pessoa mais insuportável da face da Terra.
— Não, moça! Deixa, eu levo os quatro! — soltei, tentando desfazer o estrago.
Já sabia o desfecho inevitável: aqueles dois maços extras iam acabar rápido, meu pai pediria mais em questão de dias. Resolver logo parecia a decisão mais prática.
Ela parou, ainda com a maquininha na mão, como se esperasse que aquele pedaço de plástico tivesse alguma resposta divina para a questão. Talvez estivesse calculando se deveria acreditar em mim ou insistir na correção da venda.
E, por algum motivo inexplicável — talvez nervosismo, talvez pura vontade de cortar a situação pela raiz — eu resolvi brincar:
— Vai, mulher, anda! Confia! Eu levo tudo! — falei com um entusiasmo genuíno, misturado com a pressa de quem tinha o carro parado na calçada. Não havia nenhuma intenção de ser grossa. Para mim, era só uma solução prática, leve, quase divertida.
Mas ela não entendeu assim. Ou talvez tenha entendido e simplesmente decidido que não ia deixar barato.
— Ô, minha filha, se você quer ser grossa, eu também sei ser! — disparou, em tom de voz alto, quase como quem chama para a briga.
Quando ela soltou aquela frase, eu simplesmente congelei. Um frio subiu pela espinha enquanto meus olhos instintivamente procuravam pelos arredores. Se alguém visse a cena, o que iam pensar? “Olha lá, destratando a moça da banca.” Que vergonha.
Em questão de milissegundos, minha mente fez uma retrospectiva relâmpago das palavras que eu tinha acabado de dizer. Será que minha brincadeira realmente soou grossa? Não achei que fosse o caso, mas quem garante? Muda, fiquei parada, confusa, enquanto ela estendia a maquininha com uma expressão de raiva, esperando que eu encostasse o cartão.
O pagamento foi feito, os cigarros entregues, e eu ainda me sentia culpada, um nó na garganta que só piorava. Finalmente, com uma voz meio trêmula, mas sincera, decidi falar:
— Moça, me perdoa… Eu não quis ser grossa, de verdade. Desculpa se fiz você entender isso! Foi só uma brincadeira.
E era mesmo.
Ela deu uma risadinha breve, sem muito humor, e respondeu com um tom quase indiferente:
— An tá… Sei. Tudo bem.
Não era exatamente o “tudo bem” mais convincente do mundo, mas pelo menos não jogou os maços na minha cabeça. Eu sai voando dali, entrei no carro descontando a minha raiva frustrada na buzina e fui chorando para casa. Eu odeio comprar cigarros para os outros.