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4 minutos
Repressão aos Contos Eróticos e o disfarce do "Hot"

07/02/2025

A Arte Erótica e a Necessidade de Ocultação#

A literatura erótica sempre caminhou entre a aceitação e a condenação. Desde os primeiros registros de textos sexuais até a era digital, a sociedade oscilou entre o fascínio pelo desejo e a necessidade de reprimi-lo. Hoje, em um mundo que supostamente se diz mais aberto, vemos o gênero ser rebatizado como hot, um termo que suaviza sua verdadeira natureza e reflete um resquício da mesma censura que sempre perseguiu essa literatura. Mas por que ainda há essa necessidade de esconder o erotismo sob um eufemismo?

Momentos de Repressão na História da Literatura Erótica#

A repressão aos textos eróticos não é novidade. Houve diversos momentos históricos em que a moralidade tentou sufocar esse tipo de narrativa:

O Código Comstock e a Proibição da Literatura Erótica nos EUA (1873)#

Com o Ato Comstock, qualquer material considerado obsceno foi proibido de circular pelos correios americanos, incluindo romances eróticos e até mesmo manuais de educação sexual. Obras como Fanny Hill (1748), um dos primeiros romances eróticos da literatura ocidental, foram banidas e queimadas.

A Moralidade Vitoriana e a Censura Britânica (Século XIX - XX)#

A Inglaterra do século XIX estabeleceu rígidos padrões morais, proibindo e criminalizando livros que abordassem o sexo de maneira aberta. O Amante de Lady Chatterley (1928), de D.H. Lawrence, foi banido por décadas até um julgamento histórico em 1960 revogar a censura.

A Perseguição aos Modernistas e a “Obscenidade” Literária (Século XX)#

Nos anos 1930 e 1950, autores como Henry Miller (Trópico de Câncer) e William Burroughs (O Festim Nu) tiveram suas obras proibidas por supostamente conterem pornografia.

A Revolução Sexual e a Quebra de Tabus (Anos 1960-70)#

Apenas com a Revolução Sexual e as decisões da Suprema Corte dos EUA nos anos 1960, os livros eróticos começaram a ser aceitos de maneira mais ampla, mas ainda com resistência.

E no Brasil?#

No Brasil, a censura à literatura erótica tem uma história marcada por repressão e controvérsias. Durante a ditadura militar (1964-1985), a escritora Cassandra Rios destacou-se como uma das autoras mais censuradas do país. Conhecida por suas obras de temática homoerótica feminina, ela teve 33 de seus 36 livros proibidos pelas autoridades, sendo acusada de promover conteúdo obsceno e imoral. Entre suas obras censuradas estão Copacabana Posto 6 – A Madrasta (1956) e A Borboleta Branca (1962).

Além de Cassandra Rios, outros autores enfrentaram restrições. Por exemplo, em 1977, o livro Menino de Engenho, de José Lins do Rego, foi alvo de censura por ser considerado obsceno, com questionamentos sobre sua adequação para vestibulandos.

No século XXI, embora a censura institucionalizada tenha diminuído, ainda ocorrem episódios de repressão. Em 2018, uma escola no Rio de Janeiro retirou de sua lista de leituras o livro Meninos Sem Pátria, de Luiz Puntel, após pais alegarem “doutrinação ideológica”. Em 2019, durante a Bienal do Livro no Rio de Janeiro, autoridades tentaram recolher uma história em quadrinhos que apresentava uma cena de beijo entre dois homens, alegando conteúdo impróprio para menores.

Censura Contemporânea e a Repressão na Era Digital (Século XXI)#

Apesar dos avanços na liberdade de expressão, a literatura erótica ainda sofre censura. Em 2024, na Argentina, o governo de Javier Milei apoiou uma campanha para remover livros com teor sexual de bibliotecas escolares, incluindo obras que abordam questões sociais e femininas. A vice-presidenta Victoria Villarruel alegou que esses livros promoviam imoralidade, gerando forte reação da comunidade literária. Entre as obras afetadas estava Cometierra, de Dolores Reyes, um romance que trata de feminicídios e violência de gênero, mas que foi erroneamente enquadrado como literatura pornográfica.

Além disso, grandes plataformas digitais como Amazon e redes sociais impõem restrições severas a autores independentes que publicam ficção erótica. Muitos livros são ocultados de pesquisas, limitados na monetização ou até removidos sob alegação de “conteúdo inadequado”, mesmo quando seguem diretrizes específicas. Isso reflete uma nova forma de censura, agora impulsionada por algoritmos e políticas de plataformas dominantes.

O Renascimento da Literatura Erótica e a Estratégia do Disfarce#

Nas últimas décadas, houve um ressurgimento da literatura erótica, mas de forma mais comercial e, curiosamente, camuflada. Termos como romance hot, romance sensual e erotic romance começaram a substituir a palavra “erótico”. O fenômeno de 50 Tons de Cinza (2011) popularizou esse tipo de literatura, mas dentro de um rótulo que não chocasse tanto a sociedade.

Essa mudança de nomenclatura não é apenas uma estratégia de mercado, mas também uma forma de contornar o julgamento moral. A literatura erótica sempre foi vista como algo marginal, enquanto o “romance hot” consegue espaço em prateleiras mais acessíveis sem o mesmo peso de censura. Mas, no fundo, trata-se do mesmo gênero: textos que exploram o desejo humano, o prazer e a liberdade sexual.

O Erotismo Ainda é Tabu#

A necessidade de renomear a literatura erótica mostra que, apesar dos avanços, a sociedade ainda se sente desconfortável com a sexualidade explícita. No fundo, a mudança de nome é um disfarce conveniente para evitar a censura velada e o preconceito que sempre existiu. Mas será que o desejo humano precisa realmente de um eufemismo para ser aceito?

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