Nessa época, eu não via o tempo passar, mal entendia o que ele significava. O mundo era pequeno e simples: bastava completar minha coleção de vestidos para as bonecas e passar de ano para evitar as broncas severas. Dezembro chegava trazendo uma euforia com sua magia. As vozes adultas ao meu redor falavam sobre preparativos – gente que viria para as festas, férias, viagens. E, claro, Papai Noel. Para mim, ele era promessa de alegria, o presente mais especial do ano, quase como um segundo aniversário.
Minha casa era um mundo por si só. Meu pai falava três línguas com fluência, arriscava outras duas, e eu o achava mágico por isso. Ele era meu herói de palavras incompreensíveis, que soavam como música. Eu já fazia um cursinho de idiomas e adorava repetir frases do cotidiano, como quem recita segredos importantes.
Foi num desses dias, enquanto eu brincava distraída, que meu pai me puxou do chão e me lançou para o alto. O susto se transformou em gargalhadas que doíam no peito. Ele me sentou no colo, com aquele sorriso que parecia abrir o mundo.
— Mocinha! Já escreveu sua carta para o Papai Noel? — Já sim, pai! – respondi, com a urgência de quem tem algo valioso a mostrar.
Corri para buscar meu tesouro: um papel de carta cheio de cores, figurinhas, o perfume adocicado que eu chamava de meu. O esforço infantil de transformar sonhos em palavras. Entreguei a ele, certa de que aquele ato selava um pacto sagrado.
Naquele momento, eu ainda não sabia. Não sabia que às vezes os pactos mais bonitos existem apenas dentro da gente. E que o mundo ao nosso redor pode ser tão mais frágil do que os nossos sonhos.
Eu vi o sorriso grande do meu pai murchar aos poucos. Ele desviou o olhar para minha mãe, que estava ali perto, com os braços cruzados, séria. Preocupada, talvez? “Eu fiz algo errado?”, pensei, com o coração apertado. Antes que eu perguntasse, minha mãe passou a mão pela minha cabeça, um gesto doce e silencioso, e pegou a carta da mão do meu pai. Ela leu em voz alta, mas devagar, como se cada palavra carregasse um peso que eu ainda não compreendia:
— Filha, você pediu… quatro bíblias? Em japonês, dinamarquês, francês e italiano?
— Eu gosto da Bíblia, mãe. Sou boa de religião — respondi, tentando sorrir. Meu entusiasmo vacilava, não entendendo bem por que aquilo era tão estranho. — Por quê, mãe? Papai Noel não faz Bíblia, só brinquedos, né?
Era uma pergunta sincera, mas as palavras saíram lentas. E então, como um estalo, algo dentro de mim clareou. Agora eu entendia o rosto do meu pai e a hesitação da minha mãe. Eles eram pessoas boas, e, claro, não queriam “dar trabalho” para o Papai Noel. Nem eu queria.
Vocês devem estar se perguntando por que eu pedi bíblias. Minha família não era cristã, nem mesmo religiosa, mas naquele ano, era moda na escola. As crianças estavam todas na catequese, falando de versículos, de histórias antigas, de coisas que pareciam tão importantes, tão… grandiosas. Aquilo era o meu mundo naquele momento. E como toda criança, eu só queria pertencer.
Então vieram as palavras que abalaram o meu Dezembro, suaves e doces, mas tão devastadoras que tiraram o chão sob os meus pés. Não lembro se chorei. Só lembro de não conseguir enxergar nada, como se o mundo ao meu redor tivesse ficado turvo. E o peito, ah, como doeu…
— Filha, Papai Noel é uma brincadeira. Na verdade, é o papai, a mamãe e a vovó que trazem os presentes… — disse minha mãe, ou algo assim. Não lembro exatamente das palavras, mas o peso delas ficou comigo.
Eu não compreendia direito, mas havia algo naquele momento que me sufocava. Não eram só as palavras. Era o cheiro do produto de limpeza que minha mãe passava no piso de madeira, invadindo o ar e me deixando zonza. É curioso: de toda a conversa, o cheiro é a lembrança mais nítida.
— Ah, é? Tá bom, mãe. É engraçado — murmurei, tentando sorrir. Meu sorriso, se é que se podia chamar assim, seria amarelo se minha boca tivesse todos os dentes.
Fui ficando mole no colo do meu pai. Ele, sem jeito, como se não quisesse prolongar o momento, me deixou escorregar de seus braços. Caminhei para o quarto, triste, sem direção. Abri meu guarda-roupas e tirei de lá duas cartas extras que tinha preparado, caso a primeira não desse certo. Rasguei as folhas coloridas com raiva contida, pedaço por pedaço, e joguei tudo no lixo.
Eu tinha aprendido cedo que era bom ser precavida. Se Papai Noel não atendesse ao pedido da primeira carta, eu teria outras opções. Mas, naquele dia, entendi que há coisas para as quais a gente nunca pode se precaver.