Alice queria há muito ir a uma rave, já havia decidido fazia tempo, e a oportunidade apareceu um evento chamado “O País das Maravilhas — A Rave” surgiu num feed de Instagram. Quando viu o nome, sentiu que era um sinal. “Gente, a festa é pra mim! Vai ser Alice no País das Maravilhas e, claro, que eu vou a caráter, né?” A empolgação tomou conta, e por semanas ela se dedicou a preparar o cosplay perfeito: sapatinhos brilhantes, vestido azul rodado com um avental branco imaculado, uma tiara segurando os cabelos loiros. Pequena, delicada, parecia um doce – mas só na aparência.
Não foi fácil convencer as amigas a irem com ela. Precisava de um grupo, afinal. Era perigoso ir sozinha. Conseguiu transporte, juntou dinheiro e organizou cada detalhe. Seria uma rave de música tecno que duraria três dias e três noites sem parar regada à drogas e álcool.
Ela chegou no segundo dia, já depois do meio-dia. Sabia que esse era o melhor momento. No primeiro, as pessoas ainda não estavam no clima. No último, estavam esgotadas demais para qualquer coisa. O auge acontecia ali, quando a energia do festival atingia seu ápice.
O espaço que antes era um campo aberto e verde agora se transformara em um lamaçal, pisoteado por milhares de pés incansáveis. O cheiro de terra úmida se misturava ao suor, ao perfume enjoativo de gente que tentava disfarçar o inevitável, ao azedo das bebidas entornadas no chão. A multidão se espalhava como um organismo pulsante, corpos entrelaçados sem distinção, dançando, rindo, gritando, entregues à confusão.
A música era um monstro invisível, reverberando em ondas graves que subiam pelas pernas e sacudiam os ossos. Médios e agudos rasgavam o ar como lâminas, criando uma cacofonia que oscilava entre o êxtase e o desespero. Não havia melodias, apenas um som contínuo, hipnótico, que engolia tudo ao redor.
Era um bando de gente louca, corpos se movendo em espasmos frenéticos, cada um dançando em um ritmo próprio, difícil de decifrar. A música não guiava, ela possuía. Batidas repetitivas e insanas entravam pelos ouvidos e vibravam no peito como se fossem um segundo coração, acelerado, descompassado, fora de controle. O chão era instável, um mosaico de lama e restos de festa – copos vazios, pulseiras fluorescentes quebradas, pontas de cigarros e algo que parecia vômito, mas ninguém se importava. O cheiro era uma mistura intensa de suor, álcool, grama úmida e um leve toque de incenso e queimado que vinha dos malabares de fogo que alguns malucos giravam sem parar.
Ela e as amigas não hesitaram em mergulhar nesse caos. Beberam o suficiente para dissolver qualquer vergonha e se entregaram à dança até perderem a noção do tempo. Riam alto, gritavam letras de músicas que nem sabiam direito, seus corpos brilhavam sob as tintas fluorescentes, os rostos suados, os olhos arregalados, pupilas dilatadas pela adrenalina e pelo álcool. E, claro, começaram a escanear o local em busca de presas. Beijar na boca era a meta, e logo uma a uma foi se afastando, laçadas por algum par de olhos famintos e mãos bobas.
O céu escureceu sem que Alice percebesse. De repente, a rave se transformou. As luzes ficaram mais ácidas, vibrantes e artificiais, criando sombras distorcidas e formas que pareciam dançar sozinhas no breu. Os malabares flamejantes cortavam o ar em giros alucinantes, cuspindo faíscas, enquanto malucos mascarados faziam performances com fogo. O cheiro de gasolina queimando se misturava ao das frituras vendidas em barracas improvisadas e ao adocicado dos baseados que passavam de mão em mão.
Alice olhou em volta e percebeu que estava sozinha. A multidão se aglutinava próximo ao palco, hipnotizada pelo DJ que controlava as batidas como se fosse um maestro de um exército insano. As luzes rodopiavam coloridas, criando flashes de realidade distorcida, e no meio daquela sinfonia de caos, a lua parecia fraca, pequena, insignificante diante do espetáculo de neon e sombras que consumia o ambiente.
Ela tentou encontrar as amigas, mas era inútil. No escuro, os rostos se tornavam anônimos, borrões indistintos de euforia e cansaço. Sentiu um gosto amargo de frustração na boca – não queria terminar a noite sozinha. Estava cansada, suada, exausta de dançar, exausta de procurar. Decidiu voltar ao ponto de encontro que haviam combinado antes de se perderem na multidão.
Sentou-se ali, sentindo o corpo pesado. O álcool subia e descia em ondas estranhas, deixando-a tonta, zonza. Precisava se reidratar, comer algo. O mundo girava devagar ao seu redor, como se estivesse prestes a ser engolida por aquele lugar.
— Eeeeiii… Psiu… Psiu?
Alice levantou a cabeça, os olhos pesados de cansaço e álcool. O som da música parecia mais distante por um instante, abafado, como se tivesse entrado em outro espaço dentro daquela rave caótica.
— Aqui…
A voz vinha de um ponto afastado, perto de uma árvore morta, uma silhueta encostada ali, imóvel. Era difícil dizer se era um homem ou uma mulher. Havia algo etéreo na sua presença, um ar que não combinava com a insanidade ao redor.
Alice estreitou os olhos, curiosa. Talvez essa pessoa soubesse de suas amigas.
— Você está sozinha, moça…
Mesmo de perto, a dúvida permanecia. Não havia traços definidos, apenas uma beleza andrógina, inquietante. Os olhos eram negros, muito dilatados, devorando a pouca luz que os tocava. A pele pálida parecia intocada pelo sol, como se aquela pessoa nunca tivesse existido fora da escuridão. As roupas largas e neutras não davam pistas, como se aquele corpo pudesse ser qualquer um, qualquer coisa.
— Sim… A gente se perdeu. Não acho minhas amigas.
A pessoa inclinou a cabeça para o lado, um sorriso leve, quase debochado, brincando com os lábios.
— Talvez você tenha que se perder também… para conseguir achar.
Alice franziu a testa.
— Me perder? Como assim?
O estranho riu baixinho, um som que se misturava ao barulho da rave, quase um eco.
— Você não acha estranho procurar por algo que está perdido… sem estar perdida também?
Ela piscou, tentando decifrar aquilo.
— Mas se eu me perder, como eu acho alguma coisa?
— Quem disse que você precisa achar?
Alice sentiu um arrepio na nuca. O jeito como aquela pessoa falava, pausado, brincalhão, quase hipnótico, fazia com que a rave ao redor parecesse mais distante, como se estivessem dentro de um espaço próprio, isolado do resto do mundo.
— Você fala de um jeito engraçado… — Ela sorriu, se aproximando um pouco mais.
— E você escuta de um jeito engraçado.
O sorriso do estranho cresceu, e pela primeira vez Alice percebeu algo sutil, quase imperceptível, nos cantos dos lábios… Como se o sorriso fosse um pouco grande demais. Como se, por um breve instante, não fosse exatamente humano.
Ela estremeceu, mas não de medo. Gostava daquilo. Por algum motivo, gostava muito.
— Você me beija, e eu te ajudo a se perder… e perdidos, talvez não achemos o que não podemos o que vamos encontrar. Que tal?
A frase soava como um enigma, uma brincadeira sem sentido, mas algo no tom da voz fazia Alice querer responder com um gesto e não com palavras. Havia um encanto hipnótico naquela pessoa. Os traços, delicados e indefiníveis, carregavam uma beleza que não parecia pertencer a este mundo. O jeito como falava, como se cada sílaba dançasse no ar antes de chegar aos ouvidos dela, era quase uma melodia.
Alice cedeu.
Os corpos se juntaram numa troca de calor, de pele e de hálito. Os olhos dela permaneceram abertos até o último segundo antes do contato, como se quisesse captar cada detalhe daquele momento. Os lábios da pessoa eram doces e macios, como se não contivessem nada dentro, uma superfície lisa e perfeita. A língua, pequena e comportada, passava a sensação de inocência, de algo inofensivo. Alice gostou disso.
Deixou-se envolver, jogando os braços ao redor dos ombros daquela entidade imóvel, que apenas a beijava, estática e suave.
Então, de repente, o beijo virou um turbilhão.
O gosto doce se tornou ácido. O mundo desconectou.
Alice sentiu algo na língua. Pequeno, amargo. Um papel.
— Que isso? — Tentou afastar o beijo, tentou puxar aquilo da boca, mas dedos frios seguraram suas mãos.
— Não, não, não… Não tira… Deixa… Deixa…
A voz vinha como um sussurro, um ronronar, algo que arrepiava a espinha e acalmava ao mesmo tempo.
Alice hesitou. Depois percebeu.
Era um doce. Um presente passado pelo beijo. Algo que não devia ser recusado.
Ela relaxou. Relaxou demais.
O mundo ao redor começou a pulsar de um jeito diferente, a respiração da pessoa misturava-se à sua, os contornos da rave ficaram distantes, irreais. O chão já não era tão firme. O tempo já não era tão concreto.
E, entregue aos carinhos daquela entidade etérea que a chamara ali, Alice começou a cair.
Ela piscou devagar, sua mente já deslizando para outro plano, os pensamentos escorrendo como tinta diluída em água. Tudo parecia distorcido, fluido, como se a lógica tivesse ficado para trás.
— Mas afinal… desculpe perguntar… você é homem ou mulher?
O estranho sorriu, e aquele sorriso se alongou de um jeito que não deveria ser possível.
— Eu posso ser o que você quiser, Alice… É só desejar com força.
A frase girou em sua mente, reverberando dentro do crânio como uma batida distante. O mundo já não tinha mais as mesmas regras, a gravidade parecia incerta, e a realidade se dobrava ao redor dela.
Seus olhos desceram para a boca daquela figura etérea e algo a prendeu ali. Algo estava diferente.
— Sua boca… — Alice murmurou, tentando focar. — Parece uma bucetinha pequenina…
Ela riu, sem entender se falava sério ou se sua mente estava brincando com ela. E então, sem hesitação, inclinou-se para beijá-lo novamente.
Mas agora o toque não era o mesmo.
Os lábios do outro estavam diferentes. A textura havia mudado. Eram mais carnudos, quentes e estranhamente úmidos, mais do que deveriam ser. A umidade se espalhava contra a pele dela, umidade demais, um calor diferente.
E então Alice entendeu.
Não era mais uma boca.
O que seus lábios tocavam, o que sua língua começava a invadir, não era mais uma boca humana. Era algo muito além disso.
A boca daquela criatura havia se transformado em uma vagina.
Uma abertura quente e pulsante no meio do rosto. Macia, trêmula, latejante, como se respirasse. O cheiro era intenso, invadia suas narinas, um misto de desejo e umidade densa. Seus lábios se moviam sobre aquela carne viva, e quando percebeu o que estava fazendo, Alice não recuou.
Seu corpo se inclinou mais, sua língua deslizou para dentro daquele espaço impossível, lambendo e penetrando, sentindo cada dobra quente que estremecia sob seu toque. A textura era real. Assustadoramente real.
O beijo redefiniu o termo “oral” para Alice. A sensação era nova, impossível de comparar com qualquer outra experiência. Seu corpo se incendiava por dentro, uma combustão lenta e inevitável. A cada segundo, seu senso de identidade parecia se desfazer, dissolvido no calor, no toque, no gosto estranho e delicioso daquele momento.
As mãos do estranho estavam sob seu vestido, e ela nem percebeu como chegaram lá. Como se tivessem simplesmente surgido ali, existindo antes mesmo que ela pudesse se dar conta.
Quando os dedos deslizaram pelos cantos de sua calcinha, roçando a pele quente, um arrepio subiu pela espinha, e ela se afastou apenas o suficiente para soltar um sorriso, não para impedir, mas para instigar.
— Continua…
E foi obedecida.
Os dedos se enterraram dentro dela, e um suspiro trêmulo escapou de seus lábios. Mas não era um suspiro normal. Parecia se esticar, ecoando na própria rave, como se sua voz vibrasse em sintonia com a música, como se sua existência naquele instante estivesse conectada às ondas sonoras que explodiam ao redor.
Ela sorriu. E dançou.
O corpo se movia em resposta ao que lhe invadia, sem entender exatamente a forma do que estava dentro dela. Era quente. Era estranho. Era parte dela agora.
Rebolava no ritmo da música, fazendo entrar e sair o que lhe dava prazer, os olhos semiabertos, o mundo pulsando em flashes de luz e sombra, um universo que se desmontava e remontava a cada batida. Ria às gargalhadas, uma alegria insana e pura. O prazer vinha de um jeito incomum, um fluxo que não começava apenas no ventre, mas espalhava-se por inteiro, fluindo pelo corpo como eletricidade líquida.
Do seu sexo emanava para as pontas dos dedos, como se essas fossem seus verdadeiros órgãos de prazer. Como se cada toque, cada mínimo movimento carregasse o mesmo êxtase que vibrava entre suas pernas. Enrolava os dedos nos próprios cabelos de sua cabeça, fazendo caracóis preguiçosos, como se estivesse se masturbando ali, em plena rave, sem nem perceber. Seus olhos piscavam devagar, o rosto se contorcendo em expressões de puro delírio, uma máscara de prazer transcendental.
O sexo sempre teve sensações bem definidas para Alice — o calor, o toque, a pressão exata dos corpos, o ritmo dos movimentos. Mas agora, como mágica, ela via o orgasmo. As cores tinham cheiros, e sua visão tinha gosto. O azul lhe lembrava hortelã, o vermelho tinha um toque cítrico, e o amarelo era doce como mel. O tempo se dobrava sobre si mesmo, os segundos esticavam e encolhiam, tornando impossível saber se tudo acontecia em um piscar de olhos ou se já estavam ali há horas, séculos, uma eternidade inteira.
Ela sentia o jovem atrás de si, firme, ereto sob as saias de seu vestido, colado ao seu corpo em uma dança primal. O vestido subia e descia ao ritmo dos movimentos, rodopiando ao redor das coxas como um fantasma de tecido. Os dois estavam engatados um no outro, a luxúria guiando seus passos como se a música viesse de dentro de seus corpos, e não das caixas de som que faziam o chão vibrar.
Um turbilhão de estímulos varria Alice. Sua pele formigava como se cada poro tivesse sido desperto. Uma cacofonia de sons martelava seu nariz, enquanto seu ouvido captava o cheiro de sexo preso no ar—umidade, suor, algo quente, algo animal. O mundo inteiro estava invertido, desorganizado, um labirinto sensorial onde tudo era possível.
Uma boca varria azul seu pescoço, lambendo em faixas frias e flamejantes ao mesmo tempo. O toque lhe causava arrepios, deixando sua pele gelada e quente em simultâneo. Ela estremeceu, rebolativa, empurrando-se mais contra o jovem, permitindo que ele entrasse e saísse dentro dela com uma fluidez impossível. Cada estocada era um novo pulso de prazer, uma nova onda colorida que a invadia, espalhando-se por seu corpo como se estivesse sendo dissolvida na própria atmosfera da rave. As mãos dele seguravam seus seios, apertando, massageando, mas algo estava diferente. A textura, a forma… Alice percebeu o impossível: em cada palma havia uma boca.
Línguas vivas se moviam contra sua pele, sugando seus mamilos de forma molhada, brincando com as pontas endurecidas, lambendo, mordiscando, babando sem pudor algum. Era um toque incessante, umidade escorrendo como se seus seios fossem fonte de algo sagrado, algo desejado por essas bocas impossíveis.
E então eles começaram a vibrar.
Os seios se moldavam ao prazer, pulsando ao ritmo da música, mudando de forma e volume como se fossem líquidos dentro de um recipiente invisível. Cada batida da rave fazia sua carne se expandir e se contrair, uma coreografia orgânica entre as bocas nas palmas das mãos que sugavam e as ondas sonoras que a envolviam. O tremor do prazer era verde, e pintava sua pele de cheiro de maracujá. Uma fragrância intensa e ácida, como se estivesse sentindo a fruta gotejar sobre seu corpo, um perfume cítrico e rubro que se dissolvia na brancura de sua pele. Mas junto com ele vinha outra sensação — um doce familiar, aconchegante, que surgia como um eco da memória.
Era o cheiro do café da sua avó.
A lembrança e o prazer se misturavam, fios invisíveis de passado e presente costurados por sensações que nunca deveriam coexistir. O calor morno de uma tarde de infância, a textura amarga do café preto servido em uma xícara antiga, o aroma invadindo o ar enquanto o prazer fluía de seu ventre para cada extremidade do seu ser.
Em sua boca, um amargo agudo arranhou o paladar, como se estivesse mordendo um pedaço de metal oxidado. Sua língua secou, sua garganta engoliu em falso, e por um instante tudo pareceu se condensar em um ponto único de sensibilidade extrema. Penetrada, chupada e elevada, Alice sentiu o mundo se curvar diante dela. O espaço ao seu redor tremulava como se a realidade estivesse ofegante. Tudo reverenciava seu corpo. Tudo a adorava como uma deusa.
E, do alto de seu trono no pináculo do prazer, ela distribuía de volta toda a energia que lhe era oferecida, como uma divindade generosa e insaciável. Mas todo delírio precisa de um fim, e a ruptura se deu como uma lâmina rasgando a própria estrutura da realidade.
O mundo ruiu. Seu sexo explodiu de forma violenta, esmagadora, uma onda de prazer esmagando seu corpo com a força de um trovão.
O orgasmo veio como um colapso interno, uma erupção crua e implacável que a rasgou de dentro para fora. Cada nervo queimava, cada músculo se contraiu num espasmo brutal. Era demais. Como se fosse morrer. Como se algo dentro dela se despedaçasse e renascesse ao mesmo tempo.
Uma descarga elétrica insana atravessou sua espinha, subindo até o topo do crânio. Suas pernas cederam, seu corpo inteiro se sacudiu, uma convulsão de gozo descontrolado que a fez gritar. Gritar alto.
O nome de alguém escapou de sua boca, mas ela nem sabia quem chamava.
O prazer tomou posse de cada poro, cada dobra, cada fenda. Um inferno e um paraíso colidindo dentro dela, incalculável, avassalador.
E então a queda.
O mundo real a puxou de volta, brutalmente.
As estocadas eram reais agora. A pélvis suada dele batia contra sua bunda com violência, pele contra pele, os sons molhados e imorais de sexo bruto ecoando entre os graves da música. O cheiro da rave invadiu suas narinas de novo — suor, álcool, vômito, grama pisoteada, cigarro, algo ácido e podre e quente. Tudo terrivelmente real.
Seu corpo tremia. O monstro do orgasmo rugia dentro dela, explodindo em ondas de líquido quente, espirrando forte, respingando entre as coxas, pingando no chão imundo. Seu gozo se espalhou, um jato animalesco, incontido, encharcando os dois como um batismo profano.
O corpo dela foi varrido por onomatopeias irreconhecíveis — grunhidos, gemidos, soluços misturados num transe sem controle.
E então tudo escureceu.
O colapso.
O orgasmo colossal sugou sua última fagulha de consciência, e Alice apagou.
O tempo cumpriu com sua obrigação onde o mundo é real e se fez passar.
Recostada contra uma árvore, Alice despertou sentindo o frio do metal sobre sua pele. A colcha térmica refletia os flashes vermelhos e azuis que giravam ao redor, piscando em um ritmo nauseante. Suas amigas estavam agachadas ao seu redor, nervosas, os rostos um misto de preocupação e constrangimento.
O cheiro de álcool, suor e grama pisoteada ainda impregnava o ar, mas agora havia algo pior — o cheiro inconfundível de realidade.
Bombeiros e policiais andavam apressados, falando em códigos e coordenando alguma ocorrência que, pelo jeito, envolvia ela.
— Amiga, você tá bem?
A voz chegou distante, como se ainda estivesse tentando escapar do último eco de sua viagem.
— Tou… acho… — Alice murmurou, piscando devagar. O mundo parecia agressivamente sólido agora. — Cadê ele?
O rapaz. O ser andrógino. A entidade que a havia levado para outro plano.
Uma movimentação à sua direita chamou sua atenção, e então ela viu.
Nada de uma criatura mística. Nada de um jovem misterioso com bocas nas mãos. Apenas um moleque magrelo, bonito, mas comum. Roupas amassadas, cabelo desgrenhado, uma expressão irritada enquanto desafiava os policiais com bravatas sem sentido. Algemado, cuspia palavras sem nexo, os olhos arregalados de quem ainda estava longe de pousar na realidade.
Alice abriu a boca, mas uma de suas amigas foi mais rápida:
— Amiga… — A voz veio com um peso de segundo constrangimento. — Você tava dando pra esse cara… no meio da rave… pelada.
Alice arregalou os olhos.
— E… se mijou toda.
O silêncio que se seguiu durou uma eternidade.
E então o amargo do café da sua avó veio à boca novamente, um cheiro doce.