A mulher que eu mais amava era também aquela que me fazia sangrar em ódio — um ódio denso, quente, que se alojava nos cantos do peito, sem nunca encontrar um desfecho. Na cozinha, a tarde escorria lenta, quase estática, enquanto a fumaça do cigarro dela, com seu cheiro ácido e persistente, traçava desenhos tortuosos pelo ar. Eu respirava aquele fedor por anos como quem aceita um castigo inevitável. As palavras que saíam da sua boca vinham pesadas, enroladas em lamentos velhos que há muito haviam perdido o frescor do sentido. E, ainda assim, cada sílaba tocava fundo, como se soubessem exatamente onde machucar — ela me conhecia bem, para os ataques com propriedade.
Meus olhos vagavam, inquietos, pelas paredes gastas da casa. Era um cenário modesto, marcado por histórias feitas por nós duas. Tinta descascada aqui, marcas de móveis arrastados ali — cada imperfeição era a lembrança de duas mulheres construindo algo maior que elas mesmas. E, no entanto, tudo ali parecia sufocar junto com a fumaça do seu cigarro.
Perguntei-me, uma vez mais, em silêncio — por que estou com ela? O amor, tão desgastado e ao mesmo tempo pulsante, não era resposta suficiente. Nem a memória do esforço conjunto que havia moldado aquele lar. Talvez a verdade estivesse na ausência impossível. Se eu a apagasse de mim, rasurando-a como se nunca tivesse existido, não restaria nada. A casa não existiria. Eu não existiria. Ela era a ferida, mas também a pele que me envolvia.
— Apague o cigarro, estamos à mesa. Que desagradável, mulher! Por isso reclamas que eu não te beijo mais — tua boca tem gosto de cinzas.
Ela ergueu o rosto com uma lentidão estudada, como se quisesse me dar o peso exato de cada palavra:
— Ao menos ele me dá algum prazer.
A frase pairou entre nós como uma sentença irreversível. A idade, essa ladra silenciosa, já havia me mostrado uma verdade brutal: o prazer não se entrega mais — é preciso arrancá-lo, forçá-lo a lembrar. A carne, antes ávida, agora exigia ser domada, esculpida, moldada até ceder. Não bastava tocá-la. Era preciso pressionar, raspar, marcar, tirar dela, nem que fosse por um instante, a última gota de juventude que escapava pelos poros. E até quando? Até quando eu conseguiria arrancar dela esse sopro de vida? Até quando esse amor sobreviveria ao desgaste de existir?
Amor e paixão — inegavelmente eu sempre a amei, e isso era recíproco. Mas os anos juntos, silenciosos e implacáveis, haviam empurrado a paixão para longe, como quem descarta algo na rua sem cerimônia. Não era culpa só dela. Talvez fosse minha. Eu, que em algum ponto aceitei a mentira confortável de que o desejo era uma flor frágil, murchada pela umidade que o tempo suga dos corpos. Acreditei que não havia mais espaço para o velho e bom tesão da juventude.
Mas ali, sentada à mesa, o cheiro áspero do cigarro riscando o ar, eu soube: era hora de tentar salvar o que restava. De soprar para reacender a chama trêmula desse amor que resistia — quase extinto, mas ainda ali. Como aquela última tragada que insiste antes de apagar o cigarro para sempre.
— Levanta mulher, levanta por que eu vou fazer você gozar e você vai parar de fumar esta merda de cigarro na mesa!
Seu olhar transbordava pânico diante da minha súbita insanidade, mas havia algo mais — uma faísca surpresa que brilhava sob a tensão. Antes que pudesse dizer qualquer palavra, tomei-a pelo pescoço, os dedos firmes moldando a curva delicada da sua garganta. Submissa, ela cedeu sem resistência, como se aquele lugar sempre lhe pertencesse. E sempre pertenceu mesmo.
Ela não reclamou. Nunca reclamava.
O susto lentamente cedeu espaço a algo primal; seus olhos voltaram a brilhar, inflamados pelo inesperado. Com um movimento brusco, arranquei o cigarro de seus dedos manchados e unhas descascadas e o arremessei sobre a mesa. O bastardo crepitou antes de afundar no café quente, deixando um rastro de cinzas no líquido escuro. Era seu último cigarro do maço. Ela não disse nada, apenas me olhou com a boca ligeiramente entreaberta, a respiração cortada entre submissão e desejo.
Nossos corpos se chocaram com uma urgência que não permitia hesitação, arranquei cada peça de roupa que ainda a cobria, até deixá-la despida, inteira para mim. Segurei-me aos seus seios — ah, aqueles seios que o tempo, por um milagre benevolente, havia poupado preservando-lhes a firmeza que tantas vezes me alegrou o toque. Cada curva daquela mulher era um território familiar, mas nunca desinteressante. Eu conhecia bem aquele corpo, cada linha desenhada pela memória do desejo que resistia aos anos. E ali, diante de mim, não havia espaço para dúvidas: aquele corpo sempre fora meu. E eu, inevitavelmente, ainda era dela.
Entre beijos amassados e apertos de sofreguidão, nossos corpos se moldaram em desejo. A pedra fria contrastava com o calor escaldante que nos consumia, enquanto minha boca se entregava ao espaço úmido entre suas pernas. O som molhado ecoava pela cozinha, cada movimento da língua arrancando dela o prazer sufocado, como se eu insistisse em fazer jorrar água de uma fonte que há muito se acreditava seca.
Seus gemidos, antes contidos, explodiram em gritos roucos que pareciam rasgar o silêncio das paredes. Aquela mulher, minha mulher, abria-se para mim em pura volúpia e vulgaridade, sem pudores, sem reservas — arreganhada e fodida, entregue a tudo que eu era capaz de dar e tomar.
Meu domínio era completo: clitóris, vagina, buceta, cu. Cruamente, visceralmente. Cada centímetro seu era meu altar profano. Ela se exasperou, o fôlego fugindo dos pulmões, os músculos tensos como se prontos para despedaçar. A pele tremia em arrepios frenéticos, e minha língua, incansável, dançava como se fosse a última vez, trazendo-a para o ápice de si mesma — onde prazer e abandono se confundem em puro êxtase.
O silêncio do depois — pesado, absoluto. O corpo inerte, intocável, esvaziado de tudo. Eu a suguei até a última fagulha, e agora ela jazia ali, morta e sorridente, como quem finalmente se entrega ao nada.
— Vou sair para comprar seu cigarro.
Cruzei a porta, chaves nas mãos, o cheiro dela grudado em mim — suor, gozo, ela, tudo o que eu odiava amar carregava comigo.