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1051 palavras
5 minutos
Músculos em Reflexos

Entre os aparelhos de musculação e uma música que nunca escolheria ouvir, meu corpo buscava ritmo, mas minha mente tropeçava em problemas sem solução. O suor colava na pele, o cansaço pesava nos músculos, e ainda assim, eu insistia — como se afogar na repetição dos movimentos pudesse me salvar de algo maior. Perdida nesse transe, só despertei quando uma voz cortou o silêncio do salão.

— Ô, Mutante, tô indo. Fecha tudo aí, beleza?

A ordem veio do dono da academia, já à porta, as chaves girando nos dedos antes de voarem para o instrutor. Eram os únicos ali comigo. Eu os observava, e não havia dúvidas: estavam juntos. Nos toques demorados, nos olhares que sorriam antes das bocas, no jeito de existir um para o outro. Um, escultura viva, pronto para um troféu dourado. O outro, sombra discreta, mas bela — daquelas que se percebe tarde demais, quando já te engoliu inteira.

Eu havia sobrevivido à minha sessão de tortura, e agora, um banho se fazia necessário. O suor grudava na pele como um lembrete do esforço, da fadiga, daquilo que eu tentava esquecer entre repetições e músicas que jamais tocariam na minha casa. Peguei a bolsa, pronta para me livrar do cansaço e recomeçar tudo outra vez.

— Meninos, boa noite. — Sorri, escondendo o peso que se aninhava no peito.

Na água quente, me demorei mais do que deveria. O vapor subia em espirais lentas, desenhando silêncios no azulejo frio. Sequei-me sem pressa, perfume, creme, roupas, a bolsa nos ombros. Eu estava pronta para ir. Atravessei a porta, passos leves, mas então parei. Sem querer. Sem ser notada.

Diante de mim, um segredo.

Os dois, os improváveis, entregues um ao outro. Um beijo longo, como se o tempo ali tivesse outro ritmo. Peitos nus, músculos tensos sob o suor. Mãos que seguravam firme, bocas que buscavam mais. O desejo pairava denso no ar, quente, palpável.

E os espelhos… ah, os espelhos.

Multiplicavam-nos em ângulos infinitos, como se a beleza não coubesse em somente dois corpos . O reflexo os replicava, os espalhava pelo salão, os tornava incontáveis — bocas que se devoravam em duplicidade, mãos que percorriam trajetos sobrepostos, um balé de carne e vidro. A cada nova imagem, um novo ângulo do desejo, uma nova forma de vê-los e, sem querer, de me ver ali, prisioneira do reflexo, voyeur de uma cena que não me pertencia, mas que me consumia em silêncio.

Aquilo tomou meu corpo por inteiro. O calor subiu em ondas, incendiando cada poro, fazendo brotar um novo suor, distinto do cansaço — esse nascia do desejo.

O homem grande, bruto, tomou o rapaz pelas costas, segurando-o firme, possessivo. O outro, rendido e entregue, arqueava-se contra ele, a pele suada colando no músculo tenso, os beijos tortos e urgentes, como se tentassem devorar o tempo. Era uma luta, uma dança sem coreografia, onde as bocas buscavam o gosto do outro, onde os corpos disputavam posse e prazer, onde o desejo era um animal feroz, faminto.

Os espelhos multiplicavam cada detalhe — o aperto dos dedos na carne, o arquejo entrecortado, os olhos semicerrados de puro abandono. E eu, presa entre sombras e reflexos, escondi-me mais para não ser vista. Mas o desejo já me havia encontrado. Os seios rijos, a pele eriçada, o ventre pulsando. Eu também queria ser tocada.

Dois falos erguidos, úmidos de desejo, revelavam-se sob a luz branca do salão. Um maior que o outro, ambos latejantes, vorazes. As expressões entregavam o que já não precisavam dizer — dois homens sujos de tesão, famintos um pelo outro. Riram entre palavras cortadas, um breve duelo de vontades, até que, enfim, chegaram a um acordo mudo, um pacto selado pelo olhar e um sorriso cínico.

O mais franzino se ajoelhou sem hesitação, sem delicadeza. Vi quando suas mãos envolveram o membro grosso, a pele esticada e quente, a cabeça rubra que desapareceu de uma vez em sua boca sedenta. Movia-se inteiro — lábios, língua, garganta. Engolia-o por completo, sumindo e ressurgindo, num ritmo que era tão técnica quanto entrega.

Eu assistia, fascinada, abismada.

O musculoso segurou-o firme pela nuca, dedos cravados, e então tomou o controle. Os quadris investiram contra a boca que já o aceitava sem resistência. A cada estocada, um som úmido e rouco, um engasgo, um gemido sufocado. Mas não havia recusa, não havia protesto. Apenas a rendição absoluta de quem aceitava o próprio desejo como um ato natural.

Minha mão, antes ocupada em segurar a bolsa no ombro, cedeu ao peso do instante. Escorregou devagar pelo meu próprio corpo, encontrou o seio, buscou o mamilo tenso entre os dedos. Meu ventre pulsava, minhas pernas tremiam, meu desejo era um animal inquieto, faminto. Queria saltar, queria ser tomada, queria ser devorada por aqueles dois belos espécimes.

Mas já era tarde.

O maior, agora completamente nu, livrou-se da calça com a tranquilidade de quem já sabia o que viria. Caminhou até a mesa de supino e, como quem se posiciona para um exercício, dobrou-se sobre o acolchoado, a pele suada brilhando sob a luz e relexos. A pose era feminina, mas a entrega era firme, estudada, uma entrega sem vergonha, sem pudor. O outro veio por trás, tocou-lhe a cintura, guiou-se pelo desejo. O corpo maior se retesou no primeiro contato. As primeiras tentativas falharam. Pequenos ajustes, músculos tensos, respiração entrecortada. Houve um instante de hesitação, sorrisos e palavrões, um segundo de silêncio carregado. E então, enfim, ele se abriu, recebeu-o dentro de si.

Eu segurei o ar nos pulmões. Meu próprio corpo respondeu àquela cena como se sentisse na pele o que via.

O ritmo acelerou. O menor, agora senhor da situação, cavalgava com força, um touro sendo domado, a batida das estocadas ecoando alto, sobrepondo-se à música da academia. O som era puro caos — gemidos viraram urros, sussurros se fizeram berros.

— Mete, porra… vou gozar, caralho!

O ápice veio como uma explosão. Os dois estremeceram ao mesmo tempo, os músculos rijos, cada fibra do corpo tomada pelo êxtase. Duas máquinas, dois animais, entregues a uma febre impossível de conter. Tremiam. Pareciam chorar de prazer. A respiração deles era pesada, arrastada, um resquício do furor que os consumira.

E então, o silêncio.

Foi quando o medo me tomou. Um surto súbito, o pavor de ser descoberta. Minhas mãos apressadas ajustaram a bolsa no ombro, meu olhar correu para o chão. Cruzei o salão com passos rápidos, quase sem respirar.

— Até amanhã, meninos.

E saí.

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