Capítulo 10
Depois daquele dia, já fazia mais de um mês que estávamos juntas. Curiosamente, ela não vinha causando os problemas de sempre. O ciúme persistia, é claro — sempre perguntando sobre cada uma das minhas amigas, querendo detalhes de conversas que, muitas vezes, nem eu mesma lembrava. Às vezes, ficava emburrada quando nos pegávamos discutindo vestibular. Eram horas falando sobre onde e o que queríamos cursar. Eu entendia a frustração dela; aquilo simplesmente não fazia parte da vida dela naquele momento.
Mesmo com isso, as coisas iam bem. Eu estava tranquila, quase feliz. Lelê deixou de ser tão pegajosa em público. Antes, eu brincava dizendo que, se pudesse, mijava no meu pé só para marcar território. Ela dava risada, mas sabia que era verdade.
Minha parceira de estudos era a Giovana. Para piorar, ela já tinha sido uma peguete minha, mas a coisa não avançou e acabou ficando só na amizade. Bi e piranha de marca maior, se eu não segurasse firme, vinha para cima de mim ou da Lelê como um trem descarrilado sem freio.
E olha, falar da Lelê era com ela mesma. Tarada assumida, vivia me perguntando detalhes íntimos nossos — uma chatice sem fim. Eu cortava o assunto, mas Giovana era inconveniente às vezes.
Até que um dia mostrou suas garrinhas.
— E você e a pirralha? — perguntou Giovana com aquele sorriso malicioso de sempre.
— O que tem, garota? Tira o olho da minha mulher! — retruquei, irritada.
— Mulher? Ela é uma criança, Juliana — provocou, debochada.
— Criança, mas tu quer pegar, né? — rebati, cruzando os braços. — Deixa a minha namorada quieta!
— Sei lá… eu só ia sugerir… uma coisa!
— Meu Deus, lá vem! Que coisa?
— Uma festinha nós três? Será que ela topa? — perguntou com aquele olhar safado que me dava vontade de jogar ela pela janela ou na minha cama.
Eu ri para disfarçar o nervosismo. Era para eu ter ficado puta, mas não fiquei. Eu jamais teria coragem de meter Lelê numa suruba — não mesmo. Falo que ela era ciumenta, mas eu também era, e pior. Só que, confesso, a ideia ficou martelando na minha cabeça por um bom tempo. Minha mente ia longe, montando várias cenas sujas que sempre acabavam do mesmo jeito: tudo virava água, vocês sabem onde.
— Cara, ela não vai querer. Ela não tem maturidade para essas coisas — soltei, tentando encerrar o assunto.
Estranhamente, joguei a culpa toda nela. Quando, na real, eu deveria ter dito que não queria minha namorada num rolê desses. Mas não. Sem perceber, eu já tinha aceitado. Queria aquilo também.
É foda como a mente da gente funciona, né?
Depois dessa conversa, eu fui pra praça. Lelê ia se encontrar comigo, e a gente ia procurar algo para fazer. Ela veio cheia de amigas, coisa que não tinha quando me conheceu. Eu era obrigada a aturar as infantilidades dos amigos dela. As meninas eram ok, mas, se olhassem para mim demais, ela logo ficava vermelha. Acho que elas nem sabiam que a gente namorava ou algo do tipo. Eu recomendei que ela não falasse. E quanto ficamos sozinhas a conversa começou.
— Bebê, posso te perguntar uma coisa? — Eu lembro de estar nervosa. Não sabia como ela ia reagir, então decidi ir com calma. — Você teria coragem de transar com mais de uma pessoa?
— O quê? Tá maluca, garota? — Ela arregalou os olhos, visivelmente espantada.
— Nada demais, eu só estava pensando… Nunca fiz. Sei lá, só estou com isso na cabeça, imaginando como seria.
Ela estreitou os olhos, desconfiada.
— Você, eu e quem mais? — questionou. — Se você tá pensando nisso, é porque já tem alguém em mente!
Ela não era burra. E tinha total razão. Eu suspirei, tentando medir melhor as palavras antes de responder.
— Sabe a Giovana…?
— Sua ex? A chiclete? — Lelê franziu a testa, já irritada. — Ela quer te comer de qualquer jeito, né?
— Na verdade… ela quer é você. — Plantei uma bomba e observei — …
Lelê ficou vermelha na hora. Mas, dessa vez, não foi de raiva. A vergonha tomou conta dela, e eu percebi um sorriso involuntário se formando no canto da boca. Ela tentou disfarçar, mas era difícil esconder.
— Ah, gostou da ideia, né, sua piranhazinha xoxoteira? — brinquei, apertando a coxa gelada dela.
— Isso é sério, Nana?
— Não. Mas pode ser. Ela comentou sobre.
Lelê, que sempre tinha uma resposta rápida pra tudo, ficou em silêncio. O olhar dela se perdeu no vazio, pensativa. Eu tentava entender o que estava passando pela cabeça dela, mas seu rosto era um misto de emoções indecifráveis. Por vezes, um sorriso aparecia, tímido e amarelo, sem me dar pistas se era nervoso ou animado.
— Acho melhor não, Nana. Não sei se tenho coragem pra isso.
— Ué, mas você não é a provocadora? A fodona? — provoquei, sabendo que aquilo sempre funcionava com ela. — Então?
— Você não ficaria com ciúmes de me ver com outra pessoa? Porque eu ficaria de te ver pegando outra.
Fiquei um tempo em silêncio, mordendo o lábio.
— Pensei sobre isso também… Acho que sim, ficaria. Mas, estando lá, não sei. Seria novo pra mim. Me deu uma vontadezinha de tentar, por isso queria saber sua opinião. Não sei se isso é só ideia torta dela, na verdade.
Lelê respirou fundo, hesitante.
— Ah, Nana… Definitivamente não. Não quero mesmo.
— Tudo bem então. Melhor deixar pra lá. — Dei de ombros, sem insistir.
Ficamos mais um tempo ali na praça. Pela primeira vez, dei uns beijinhos nela em público, sem me importar com quem olhava. Depois, me despedi e fui para casa sozinha, como de costume.
No meio do caminho, peguei o telefone e disquei.
— Giovana… — minha voz saiu baixa, carregada de malícia. — Como vai ser aquela parada? Vai rolar, tá?
Do outro lado, um riso safado respondeu.
Eu sorri, mordendo o canto do lábio. Eu era só maldade.