Capítulo 9
No meu apartamento, coloquei a cesta sobre a mesa da sala e, sem perder tempo, peguei a caixa menor. A embalagem discreta, envolta em um papel que parecia um tecido fino, exalava sofisticação na simplicidade. Desfiz o embrulho com curiosidade, sentindo um leve frio na barriga.
Dentro, para minha surpresa, havia um iPhone — novo, impecável. Ao lado, um bilhete escrito com aquela caligrafia elegante e precisa.
“Aqui está algo que não é um presente, e sim uma ferramenta de comunicação entre nós. Você deve me ligar somente deste aparelho. Ele está ativado e pronto para uso. Na agenda há alguns números de prestadores de serviço de minha confiança que pode utilizar em meu nome. Quando eu ligar, não deve deixar de atender antes do terceiro toque. Esteja sempre disponível para mim.”
Li aquilo duas vezes, franzindo a testa.
— Ah, que carinhoso! — murmurei, carregada de ironia.
Desbloqueei a tela e fui direto para a agenda. Realmente, havia mais de dez contatos salvos ali. Psicólogos, nutricionistas, médicos, advogados… e um pintor?
— Pra que diabos eu precisaria de um pintor?
A pergunta ecoou na minha cabeça, e então uma lembrança veio como um estalo. Os quadros. Aquela parede repleta de retratos femininos. Mulheres nuas, pintadas com uma precisão quase obsessiva.
Senti um arrepio.
Fui direto para a internet e procurei fotos dele, tentando encontrar alguma pista, alguma imagem que me desse respostas. Passei minutos analisando, comparando… mas os quadros eram todos à óleo e estava escuro, os traços não estavam claros o suficiente para eu afirmar qualquer coisa.
Mas uma coisa ficou evidente.
Ele tinha um padrão.
Cada uma daquelas mulheres — todas — de alguma forma eram assustadoramente parecidas comigo.
Engoli em seco.
— Estranho…
Minha mente correu de volta para a May. Se ele me contratou porque eu era parecida com essas mulheres, por que ela não me disse nada sobre isso? Ela só falou que me indicou para o “trabalho”, como se fosse algo aleatório.
— Será que a May esqueceu de me contar alguma coisa?
Havia muitas perguntas sem resposta naquela história, e uma delas era se ele havia me pagado pela noite. Quando chequei minha conta, lá estava o depósito, feito mais ou menos na hora em que eu coloquei os pés naquela casa. Era uma quantia considerável, metade de um salário mínimo, o suficiente para eu me sustentar por um mês junto com o que May tinha me dado.
Automaticamente, comecei a fazer contas, tentando calcular quantas noites como aquela seriam necessárias para eu resolver minha vida. Acabei estranhando o rumo dos meus próprios pensamentos e, principalmente, a naturalidade com que a palavra “programa” havia surgido na minha mente.
— Cacete, eu já estou falando que nem uma puta… — murmurei, soltando uma risada amarga. Mais cedo, eu estava pelada e deitada no meu próprio mijo, e agora estava ali, fazendo cálculos. — Luana, você não tem juízo mesmo.
O choque já havia passado. Eu deveria estar envergonhada, assustada, com nojo. Mas, estranhamente, eu me sentia leve, quase tranquila. Não havia culpa, não havia pavor, apenas uma sensação de vazio que, de alguma forma, era reconfortante. Claro que ainda existia o medo do que eu estava prestes a me envolver. Eu não gostava de sentir dor, e aquele quarto tinha me mostrado, sem rodeios, que eu sentiria muita.
Talvez fosse isso que me incomodava mais do que tudo. O fato de que, apesar do absurdo de tudo aquilo, eu estava aqui, curiosa. Peguei o celular e comecei a revirar a internet atrás de informações sobre BDSM. E foi aí que percebi que o buraco era muito mais fundo do que eu imaginava.
No dia seguinte, acordei com o telefone novo no meu peito. Devia ter dormido no meio da pesquisa, porque minha cabeça ainda parecia pesada. Levantei com a boca seca, um gosto horrível de cabo de guarda-chuva, e fui me coçando até o banheiro. Sentei para fazer meu xixi matinal e, enquanto isso, comecei a tirar a roupa para o banho. Nunca fui de andar completamente pelada dentro de casa, mas pensei em tentar hoje, só para ver se conseguia me sentir mais natural com meu próprio corpo.
Me limpei e fui até o espelho da sala, já que meu banheiro não tinha luz e, mesmo de dia, era escuro. Me olhei ali, analisando cada detalhe. Eu não era uma modelo de biquíni, mas era normal. Meus seios eram bonitos, médios e arredondados, e minhas coxas tinham um volume considerável para o meu tamanho. Virei de costas para dar uma olhada na bunda e vi umas marcas nas laterais.
— Essas estrias aqui que matam!
Quase não dava para ver, mas pareciam uma patente de sargento. Minha bundinha era bonitinha, nem grande, nem perfeitamente redonda. Se eu fizesse academia, ficaria muito melhor. E eu precisava, porque a pancinha já tinha uma dobrinha que poderia muito bem não estar ali.
Foi quando notei a depilação. Eu tinha feito um corte meio improvisado, aparando os pelos e deixando uma faixa na frente, sem mexer. Agora estavam em dois tamanhos diferentes, e ficou meio vergonhoso lembrar que estive pelada naquela situação com a boceta esquisita desse jeito.
— Tinha uma depiladora na agenda… e se eu ligar e marcar uma hora?
Peguei o telefone e disquei.
— Bom dia.
— Bom dia, tudo bem? — a voz do outro lado respondeu de imediato. — Queria saber se tem um horário para depilação? Queria uma cavada. Qual o preço?
— Oi, senhora Luana! Tudo bem? Posso passar hoje em sua casa às duas?
Meu estômago deu um nó.
— Po… pode… — Como ela sabia meu nome? Como ela sabia meu endereço?
— Você tem meu endereço?
— Sim, senhora. Combinado às duas?
Engoli seco.
— Tudo bem… pode vir.
Desliguei e fiquei encarando o telefone. Aquelas pessoas da agenda sabiam de mim? Como? Desde quando? Isso era estranho demais.
Mas isso devia ser coisa de gente rica, pensei. Ele provavelmente tinha um monte de pessoas prestando serviços para ele, um time inteiro que, talvez, também cuidasse das meninas dos quadros. A ideia me incomodava, mas o que mais me deixou intrigada foi ver nomes de médicos e psicólogos na lista. O que essas pessoas faziam ali? Não queria imaginar.
Ainda assim, eu estava decidida. Na próxima vez que o visse, se tivesse coragem suficiente, perguntaria a ele quem eram aquelas mulheres.
A manhã ainda estava no começo, e eu resolvi fazer o serviço doméstico sem roupas. Ria sozinha da situação, achando aquilo esquisito demais. A cada brisa mais forte batendo em lugares onde eu não estava acostumada, um calafrio subia pela minha pele. Vento na periquita enquanto se passa vassoura na casa era uma experiência… diferente. O banho matinal ficou para depois da limpeza, pelo menos assim eu não precisaria tomar outro.
Quando deu meio-dia, pedi uma salada pelo telefone. Agora que tinha algum dinheiro, podia me dar esse luxo. Na minha casa, só tinha macarrão, e sem molho de tomate. E carboidrato só ia aumentar a pança! Pouco antes das duas, vesti-me novamente. Eu não ia receber a mulher da depilação pelada.
E ela foi pontual, impressionante.
Ela entrou carregando uma maca e uma bolsa grande, como se já conhecesse a rotina de atender pessoas em casa.
— Oi, dona Luana, tudo bem? Posso usar seu fogão para esquentar a cera?
— Claro, por aqui.
Apontei para o fogão enquanto fazia uma nota mental para lembrar de pagar o gás. Era melhor garantir que não cortassem.
Ela era simpática, o tipo de pessoa fácil de conversar. Enquanto organizava os materiais, começamos a falar sobre estética, trocando dicas e experiências.
— Você faz esse trabalho para ele há muito tempo?
— Sim, atendo há três anos.
— E você depila todas as namoradas dele?
Ela fez uma pausa curta antes de responder, o rosto assumindo uma expressão cuidadosa.
— Dona Luana, eu faço alguns serviços que me indicam, mas não sei sobre os relacionamentos das pessoas. Essas coisas a gente não conversa.
O jeito que ela falou me fez perceber que aquele assunto era proibido. Se eu quisesse que ela me dissesse algo, teria que ganhar sua confiança primeiro.
Mas uma coisa era certa: ela fazia a depilação das outras mulheres, só não podia falar sobre isso. E, sinceramente, nem precisava saber de tudo para ter uma noção do que se passava. Depiladoras, cabeleireiras e maquiadoras escutam coisas o tempo inteiro.
— Você tem contrato de sigilo também?
— Sim, dona Luana.
Então era isso. Todo mundo ao redor dele estava preso sob um silêncio forçado. O que mais ele escondia?
— Quer uma calcinha desacartável?
— Ah, não precisa, estou em casa, posso fazer sem.
Tirei a parte de baixo da roupa e deitei na maca. Ela começou a trabalhar em mim primeiro na parte da frente, os movimentos precisos, meticulosos. Fiquei observando, e foi então que me dei conta de algo estranho: eu não tinha dito como queria. No telefone, mencionei apenas “cavada”, mas, normalmente, antes de começar, sempre perguntam o quão cavado queremos.
Esperei que ela perguntasse, mas nada. Resolvi ficar quieta e ver até onde ela ia.
Ela depilou um lado, depois o outro, e quando terminou a parte frontal, pediu que eu me virasse para tirar atrás. Foi rápida, quase indolor.
— Prontinho, dona Luana!
— Eu estou curiosa com uma coisa… você não perguntou como eu queria. Como sabia?
Ela sorriu de leve, ajeitando os materiais enquanto respondia.
— A senhora não disse cavada ao telefone?
A explicação foi simples, direta. Simples demais. Algo na forma como ela disse não me convenceu completamente. Era paranoia da minha cabeça ou ela realmente sabia mais do que estava dizendo?
Antes que eu pudesse pensar em uma resposta, ela completou:
— A senhora quer tirar mais? Tem certeza?
O “tem certeza?” ecoou na minha mente como um desafio.
Por um instante, cogitei perguntar mais, testar a reação dela. Mas resolvi não alimentar aquela desconfiança — pelo menos, não agora.
— Não, era só curiosidade mesmo. Ficou ótimo.
— Ah, que bom! Não se preocupe com o pagamento, será acertado com ele, tá bem?
Engoli seco. Claro que seria.
Aquela era apenas mais uma coisa sobre mim que ele já controlava, mesmo sem precisar me dizer nada. Era ele quem escolhia a depilação de suas mulheres.
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