Capítulo 10
No dia seguinte, o telefone novo vibrou com uma mensagem. Uma pergunta direta: se eu estava bem, se tinha gostado do presente. E, no fim, uma convocação clara: queria me ver às oito da noite, na casa dele. Respondi que sim.
Feliz? Talvez. No fim das contas, era mais dinheiro entrando, e nada podia ser pior do que aquilo. O que ele poderia fazer? Me comer? Eu já estava preparada para isso. Se ele quisesse, eu daria de graça. Minha dignidade já tinha preço, e eu mesma o coloquei à venda.
Me arrumei e esperei. O senhor Roberto não atrasou nem um minuto, me esperando na portaria com aquele sorriso paternal que, em outra vida, talvez me despertasse algum tipo de conforto.
— Minha querida senhora! — saudou ele, abrindo os braços num gesto exagerado.
Revirei os olhos.
— Roberto, não me chama de senhora.
Ele inclinou a cabeça de lado, divertido.
— E que tipo de homem atrevido eu seria se não chamasse?
— O tipo que me chamaria pelo nome.
— Pois eu me nego, senhora.
Riu. Eu também, mas só por dentro.
Dessa vez, a casa estava toda acesa, diferente da última visita. Mas o carro não parou na frente como antes — seguiu direto para um pátio nos fundos. Estranhei, mas me calei. O motorista desceu primeiro, abriu a porta para mim com aquela formalidade automática.
— Senhora, hoje entraremos pela lateral. Eu a guiarei. O patrão tem visitas e pede que a senhora o aguarde.
A casa tinha múltiplas entradas, e aquela era apenas mais uma. Atravessamos um ambiente amplo — uma cozinha conjugada com uma área de lazer e churrasqueira, que dava acesso ao salão principal. Dali, pude vê-lo.
Ele estava sentado, conversando com dois homens. Pareciam executivos, as gravatas frouxas, as mangas das camisas arregaçadas, copos de uísque nas mãos. Não entendi sobre o que falavam, mas o tom era tranquilo, quase descontraído. Talvez só um happy hour depois do trabalho. Nada que me dissesse respeito.
— Aqui estamos — anunciou o motorista, parando diante da porta.
Meus pés travaram no chão. Um flashback da última noite ali me atingiu como um golpe. Minhas pernas vacilaram. Minha respiração pesou.
A fechadura moderna piscava um pequeno LED vermelho. Trancada.
— O patrão pediu que a senhora usasse o aplicativo do celular para destravar a porta — disse o motorista, impassível.
Pisquei, confusa. Peguei o celular. Um ícone novo brilhava na tela. Apertei um botão e aproximei o aparelho da maçaneta, que emitiu um clique suave.
A porta se abriu.
Entrei devagar, o motorista atrás de mim, virando as coisas. Acendi a luz e encarei a alcova novamente. Dessa vez, sem deslumbramento. Dessa vez, vendo tudo com mais calma, mais consciência.
A primeira coisa que fiz depois de acender as luzes foi observar os quadros com mais calma. Peguei o celular e fotografei cada uma das telas. Eram pinturas a óleo, impecavelmente detalhadas, feitas por mãos habilidosas. Devem ter custado uma fortuna, sem falar nas molduras, de madeira pesada, douradas como se fossem banhadas a ouro.
Levantei o olhar para o teto, bem acima do palquinho. Como eu imaginava… algo ali estava pronto para me sustentar, me manter suspensa. Um arrepio subiu pela minha espinha, mas eu o engoli seco. Nada daquilo era realmente novo. O resto do cômodo permanecia inalterado. Um arsenal de brinquedos espalhado pelos móveis — vibradores de todos os tamanhos, chicotes, cordas grossas, máscaras, roupas excêntricas.
Sem saber exatamente o que deveria fazer, me joguei na poltrona dele, bem de frente para o palco. Peguei o celular e comecei a mexer, esperando que ele chegasse. Enquanto isso, minha mente trabalhava. Voltei a olhar as imagens nas paredes e tentei cruzá-las com rostos conhecidos nas redes sociais. Mas era uma busca ingrata — a maioria das pessoas corta laços com ex-namoradas, ex-amantes, ex-qualquer coisa. Para encontrar uma delas, eu precisaria de sorte. E sorte nunca foi algo que eu tive de sobra.
A porta se abriu. Era ele.
Quando meus olhos bateram nele, eu me senti errada. Ele ficou parado na porta enquanto fechava-a lentamente sem tirar os olhos de mim. O olhar dele era penentrante e me assustava, um olhar de reeprensão, mas sem mover um músculo do corpo. Ele veio na minha minha direção calmamente sem falar nada. Eu levantei como uma criança que estava fazendo algo errado. Ele se sentou onde eu estava e olhou para o palco e fez um movimento de mão.
— Luana, precisa que eu repita as suas ordens?
Ele disse calmamente, sem precisar elevar a voz.
Eu sabia quais eram as ordens, sabia o que ele esperava de mim, mas uma dúvida pairava no ar. Deveria permanecer assim o tempo todo? Meu corpo ainda não tinha assimilado completamente o que significava obedecer sem hesitação.
Sem dizer nada, caminhei até o armário e deslizei os dedos pela alça do vestido, puxando-o para baixo lentamente. O tecido deslizou pela minha pele, um arrepio me percorrendo à medida que a brisa fria do ambiente roçava os pontos mais sensíveis do meu corpo. Minha respiração vacilou por um instante, mas continuei. Deixei a peça cair até tocar o chão em um sussurro leve. Meu corpo agora estava completamente exposto, e mesmo que essa não fosse a primeira vez, a vulnerabilidade ainda pesava.
Meus pés tocaram o chão frio enquanto me movia até o palco. Cada passo ecoava pelo ambiente, preenchendo o silêncio esmagador. Quando alcancei o centro da estrutura elevada, fechei os olhos por um breve instante, reunindo forças para aceitar o que viria a seguir.
Com um movimento preciso, entrelacei os dedos atrás da cabeça, sentindo os fios dos cabelos se espalharem pelo pescoço. Meu peito se ergueu involuntariamente, deixando minha respiração ainda mais visível sob a luz. Afastei as pernas conforme ele havia ordenado, o frio subindo pela minha pele nua, o calor do olhar dele queimando cada centímetro exposto.
Eu estava pronta. Ou, pelo menos, fingia estar.
— Luana, você quer ser punida?
A pergunta veio sem pressa, sem emoção, mas me atravessou com um peso sufocante. Meu peito subia e descia num ritmo desigual, minha boca abriu e fechou antes que minha voz finalmente saísse:
— Somente se o senhor desejar, senhor.
Era isso que eu tinha que resolver.
O silêncio que se seguiu foi ainda pior do que a pergunta. Meu estômago se revirou quando ele desviou o olhar para o copo em sua mão, girando o líquido âmbar como se não houvesse nada ali que valesse seu tempo.
— Confesso que hoje eu perdi a vontade de ter você aqui. Eu acho que você não serve para isso.
As palavras vieram baixas, sem rancor, sem raiva, sem nada. Apenas uma constatação seca, objetiva, final. Meu corpo não reagiu, mas algo dentro de mim se partiu de um jeito que eu não esperava. Sem dizer mais nada, ele se levantou e saiu pela porta, me deixando perdida. Parte de mim dava graças a Deus. Ele tinha desistido. Eu não era boa o bastante para o que quer que ele quisesse. Eu estava livre. Era só pegar minhas roupas, sair dali e nunca mais olhar para trás.
Então por que, se eu estava tão aliviada, minhas mãos não se moviam? Por que minhas pernas continuavam presas ao chão? Eu fiquei ali, ancorada a não sei o que que me mantinha naquele lugar. Pelada. Em posição de submissão.
O tempo passou, mas eu não conseguia mensurá-lo. Minhas mãos estavam dormentes, os dedos formigando pela posição prolongada. O frio começava a se tornar insuportável, se infiltrando na minha pele, arrepiando cada parte exposta do meu corpo. A ansiedade corroía meu estômago, um nó apertado que não se desfez nem quando tentei respirar fundo.
E então, a porta se abriu.
Meus músculos enrijeceram no mesmo instante, um susto atravessando meu peito como um espasmo involuntário. Mas o que realmente me fez prender a respiração não foi ele ter voltado.
Foi o fato de que ele não estava sozinho. Duas mulheres entraram com ele.
Minhas costas se arrepiaram ainda mais. O choque me atravessou de tal forma que tentei instintivamente esconder meu corpo, mas meus braços estavam rígidos demais, presos na posição que ele exigiu. O formigamento intenso transformava qualquer movimento em algo impossível.
— Então madame, aí está ela.
A voz dele preencheu o ambiente com calma absoluta, como se eu não passasse de um objeto à espera de avaliação. O som dos passos se aproximando fez minha respiração falhar. Meu corpo queria se encolher, mas eu permaneci imóvel, minha pele nua exposta ao julgamento deles. O pânico estava ali, grudado em mim, aflorando nos pequenos tremores que percorriam meus músculos. A mulher mais velha avançou primeiro. Ela não precisava de extravagâncias para exalar autoridade. Devia ter por volta de cinquenta anos, uma presença firme, de quem nasceu cercada por dinheiro e boas maneiras. Seus olhos frios me analisavam sem nenhuma pressa.
A garota ao seu lado destoava. Jovem demais. Talvez nem vinte anos. O rosto ainda tinha traços de inocência, mas o corpo já carregava curvas suaves, bem desenhadas sob o jeans justo e a camisa de botão amarrada à cintura. O tênis nos pés a fazia parecer deslocada naquele ambiente.
— Ah, querido… — a mulher falou, o tom carregado de aprovação. — Ela é bonita. Foi um bom investimento.
A palavra caiu sobre mim com o peso de um ferro em brasa. “Investimento.”
O salto dela ecoou quando ela encurtou a distância entre nós. Seu perfume elegante invadiu meus sentidos antes que seus dedos frios alcançassem meu queixo. O toque foi firme, me obrigando a erguer o rosto. Seu olhar percorreu meus traços como se cada detalhe precisasse ser avaliado, pesado, categorizado.
Minha pele se arrepiou. Minha mente gritava, esperando o inevitável.
“Ela vai me tocar. Ela vai passar as mãos pelo meu corpo.”
O nojo rastejou pelo meu estômago, mas não tive tempo de deixar a repulsa crescer. Ela me soltou com a mesma indiferença com que me segurou, como se eu não fosse interessante o suficiente para merecer mais contato.
— Só muito arisca. — Sua voz carregava um leve traço de divertimento. — Mas eu posso dar um jeito nisso.
Ele permaneceu calado por um instante. Quando falou, a decisão já estava tomada.
— Luana, essa é madame Lulu. Será a sua tutora a partir de hoje.
Meus pulmões pesaram, como se cada palavra dele tivesse esvaziado o ar ao meu redor.
“Tutora? O que isso significava? O que exatamente ela faria comigo?”
Minha boca secou, mas a resposta saiu no automático.
— Sim, meu senhor.
Madame Lulu sorriu, satisfeita.
— Querida, abaixe os braços. Você não sabe fazer isso direito. Vou dispensá-la da posição.
Meus ombros finalmente relaxaram. Minhas mãos caíram ao lado do corpo, formigando, rígidas demais pela posição prolongada. O alívio de poder me mover não apagava a humilhação.
— Precisa ir ao banheiro?
O frio subiu pelo meu estômago como um soco inesperado. Minha mente me puxou de volta para a última vez. O chão frio. A humilhação escorrendo por mim. O cheiro impregnado na pele. A vontade sumiu na mesma hora. Mas minha voz não conseguiu negar.
— Sim…
Os olhos dele se estreitaram.
— Sim, senhora madame Lulu. Seja educada. E não me olhe nos olhos.
Minha garganta se apertou.
— Sim, senhora madame Lulu.
— Agora vá.