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1385 palavras
7 minutos
O banho de Luana

Capítulo 7#

Eu não sei quanto tempo passou. Talvez tenha sido minutos, talvez horas. Ou talvez o tempo tenha simplesmente deixado de existir para mim. Só sei que, em algum momento, perdi a noção de tudo. Talvez eu tenha morrido um pouco ali, presa na imobilidade, engolida por algo maior do que o simples desconforto.

Não consigo dizer quanto tempo fiquei deitada ali, no centro daquela humilhação, presa na imundície do meu próprio corpo. Apenas sei que ele permaneceu me observando. A única certeza que tinha era sua presença, seus pés imóveis perto de mim, como um predador paciente diante de uma presa que já nem tenta fugir.

— Luana, levante-se e tome cuidado para não escorregar, parece que tudo finalmente secou, não há mais motivos para você ficar aí.

— Luana, levante-se e tome cuidado para não escorregar. Parece que tudo finalmente secou. Não há mais motivos para você ficar aí.

— Sim, meu senhor.

Minha voz saiu antes mesmo que eu pensasse. O corpo se moveu por instinto, mas dentro de mim, tudo ainda estava parado. Como se meu espírito não tivesse conseguido se levantar junto com minha carne. Meu primeiro pensamento deveria ter sido alívio, mas não foi. Eu apenas aceitei. Como se aquela fosse a única sequência lógica dos acontecimentos. Meus músculos protestaram no instante em que me pus de pé. Cada articulação parecia enferrujada, rígida pelo tempo incalculável que passei naquela posição humilhante. A pele repuxava com a secura, carregando o resquício pegajoso da minha própria vergonha. O cheiro impregnado em mim fazia minha garganta fechar. Eu não era mais dona do meu corpo. Nem mesmo do meu nojo.

— Venha, vou mostrar o banheiro.

Ele caminhou à frente, e eu o segui sem hesitação. Meus pés tocavam o chão frio, deixando para trás as marcas invisíveis daquilo que eu me tornava. A porta se abriu para um ambiente de puro requinte. Mármore branco e dourado, metais polidos refletindo a luz suave que saía de luminárias embutidas. Tudo ali era impecável, luxuoso. Mas nem toda aquela sofisticação conseguiu me alcançar.

Meus olhos ardiam, e era difícil dizer se era pelo choro ou pela maquiagem borrada. Só percebi minha própria aparência quando ergui o olhar para o espelho. O reflexo que me encarou não era meu. Meus cabelos escuros, agora grudados em mechas disformes, pareciam uma gosma sobre minha pele pálida. Os olhos, emoldurados por trilhas escuras de rímel escorrido, tinham um vazio estranho, como se a mulher ali dentro já tivesse desistido. Meus lábios estavam entreabertos, secos, e minha expressão era uma mistura grotesca de horror e apatia.

Branca. Nua. Desgrenhada.

Eu parecia um monstro de filme de terror. E, por um instante, a ironia disso me atingiu de um jeito que não pude conter: ri. Baixo, quase um sopro, um riso sem alegria. “Como eu fui chegar tão baixo? Como alguém como eu veio parar aqui?”

O pensamento se dissipou antes que pudesse encontrar uma resposta.

— Tome uma ducha. — Sua voz soou firme atrás de mim. — Eu estarei te observando.

Minhas costas se enrijeceram.

As palavras ecoaram na minha mente, como se fossem muito maiores do que deveriam ser. Eu estarei te observando. Meu primeiro reflexo foi buscar algo no ambiente, qualquer pista do que aquilo realmente significava.

Foi quando as luzinhas vermelhas me chamaram a atenção.

Pequenos pontos discretos, mas não escondidos. Uma, duas… contei rapidamente. Quatro câmeras. Pequenas, bem posicionadas, cobrindo todos os ângulos possíveis.

Elas estavam ali para serem vistas. Não havia tentativa alguma de camuflá-las.

Meu peito se apertou, e o ar pareceu mais pesado ao entrar nos meus pulmões. Ele não queria apenas assistir. Ele queria que eu soubesse que estava sendo vista.

Liguei a água quente do chuveiro, ouvindo o som abafado das gotas batendo contra o vidro do box. O vapor começou a subir lentamente, enevoando o ambiente, mas ainda assim o frio persistia em minha pele. Meus olhos percorreram o banheiro em busca de itens de higiene, qualquer coisa que me ajudasse a apagar a sujeira grudada no meu corpo. Mas não havia nada. Nenhum frasco, nenhum sabonete à vista.

Franzi a testa, confusa, até que sua voz soou atrás de mim.

— O que você deseja está ali.

Ele apontou para uma cesta grande e requintada, repousando sobre a pia de mármore como um presente cuidadosamente preparado.

Me aproximei e abri a tampa com hesitação. No primeiro momento, demorei a entender o que estava vendo. Dentro da cesta, cada item parecia feito sob medida. Frascos elegantes de vidro e cerâmica, rótulos discretos, nada de marcas conhecidas. Shampoo, condicionador, cremes para cabelos, hidratantes específicos para pés, mãos e cotovelos. Havia sabonetes delicadamente embalados, até mesmo produtos para higiene íntima. Esmaltes, óleos corporais, até uma escova de cerdas naturais.

Tudo que uma mulher poderia precisar.

Mas algo estava errado.

Levei um dos frascos ao nariz, esperando sentir um aroma floral, algo cítrico ou adocicado. Mas não havia nada. Nem cheiro de química, nem perfume. Nenhuma fragrância artificial ou natural. Apenas um vazio inodoro, como se os produtos tivessem sido criados para serem invisíveis ao olfato.

Antes que eu pudesse perguntar qualquer coisa, ele falou novamente, com a mesma calma meticulosa de sempre.

— Você deve levar essa cesta com você, Luana. Eu não quero que use mais nenhum produto que não sejam esses da lista. Se precisar de algo que não tenha aí, me avise e eu providenciarei.

Fiquei imóvel, processando suas palavras, tentando compreender o significado por trás daquela exigência.

Então, ele concluiu, cortante:

— Eu não gosto de como você cheira. E precisamos mudar isso.

O ar pareceu sumir por um instante.

Meus dedos apertaram a borda da cesta com força, enquanto a realidade se desenrolava à minha frente. Eu choraria, se conseguisse entender o motivo. Mas algo dentro de mim estava dormente, como se minha mente tivesse se recusado a processar mais uma humilhação.

Meu corpo se moveu sozinho, entrando sob a água quente sem sequer testar a temperatura. O impacto do calor contra minha pele arrepiada foi como um choque, um despertar abrupto, varrendo de mim o peso pegajoso do que havia acontecido. Era como se a água estivesse levando embora algo além da sujeira — como se lavasse de minha pele o presságio de morte que se grudara a mim.

Quando me virei para a porta, ele não estava mais lá. Mas sua presença estava. Pequenas luzes vermelhas piscavam discretamente, e as câmeras se moviam sutilmente, acompanhando cada um dos meus gestos.

Lavei meus cabelos com aquele xampu sem cheiro, sentindo os fios pesados cederem sob meus dedos. Esfreguei meu corpo com força, como se pudesse arrancar de mim tudo o que não pertencia mais à minha pele. Quando minhas mãos deslizaram pelo meu sexo, não foi com desejo, mas com uma necessidade primitiva de limpar, de arrancar de mim a causa do desejos dos homens.

Minha pele estava estranhamente hidratada, mas havia um incômodo. Uma ardência fina, quase imperceptível, que se manifestava em pequenas placas avermelhadas — a urina havia levemente queimado a minha pele.

Algo naqueles produtos me transformava, de dentro para fora, de uma forma que eu ainda não compreendia. E então, algo inesperado aconteceu. No meio daquele banho, mesmo sob o olhar inescapável das câmeras, algo dentro de mim se rompeu. Foi um riso. Primeiro um sopro leve, um suspiro estranho que escapou sem permissão. Mas então, cresceu. Uma gargalhada genuína, quase eufórica, tomou conta de mim.

Eu ri.

Alto demais.

Ri como se nunca tivesse rido antes. Como se a água não tivesse apenas levado o cheiro da urina, mas tivesse varrido também toda a tristeza que um dia já pesou sobre mim.

Eu ri no banho.

E não chorei mais.

Quando terminei, envolvi meu corpo em uma toalha macia, sentindo a textura delicada deslizar sobre minha pele renovada. Parecia o fim de uma noite agradável, como se todo o horror anterior tivesse sido apenas um delírio febril. Mas não era.

Sequei os cabelos com um secador silencioso, observando no espelho como os fios molhados recuperavam sua forma aos poucos. Cada gesto parecia calculado, meticuloso, como se eu estivesse me preparando para algo maior do que apenas estar limpa.

Me enrolei em um roupão de tecido leve, sentindo o toque suave contra minha pele sensível. Ele voltaria a qualquer momento.

E eu sentia que deveria estar pronta para ele. Limpa. Perfeita.

Me sentei no vaso fechado, a toalha ainda cobrindo parte das minhas pernas. Peguei a escova e comecei a pentear os cabelos com calma, os movimentos cadenciados preenchendo o silêncio do ambiente.

A espera era inevitável.

E eu aguardaria.

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