Capítulo 8
Ele veio me buscar quando terminei meu banho. Parou à porta e ficou me olhando, aguardando algo, como se esperasse que eu lesse sua mente. Meus olhos permaneceram baixos, não porque ele havia ordenado, mas porque eu simplesmente não tinha vontade de olhá-lo.
Fiz um movimento para retirar o roupão. Ele me queria sempre nua… mas fui interrompida.
— Luana, hoje eu vou liberá-la mais cedo. Acredito que o primeiro dia foi intenso demais. Você realmente me impressionou. O motorista a levará até sua casa.
Só isso.
Não havia qualquer emoção na voz dele, nem satisfação, nem frieza, apenas uma constatação objetiva, como se estivesse finalizando um contrato comercial.
Fiquei ali, imóvel, absorvendo suas palavras. “Acabou? Era só isso?”
Meus dedos apertaram o tecido do roupão ao redor do meu corpo. Algo dentro de mim esperava sentir alívio. Esperava que a ideia de sair daquela casa, de estar de volta ao meu mundo, trouxesse um sopro de liberdade. Mas não trouxe.
Ele não esperou qualquer resposta. Apenas se virou e saiu, deixando-me sozinha deixando o silêncio, que ficou para trás, e era ensurdecedor.
Deixei o ar escapar lentamente pelos lábios, tentando reorganizar meus pensamentos. Eu deveria me mover, me vestir, descer, entrar no carro e ir embora. Mas meus pés estavam presos ao chão, como se algo invisível me segurasse ali. Forçando-me a agir, caminhei até o espelho e busquei minhas roupas para vestir. Meus olhos estavam vermelhos, minha expressão cansada, marcada por algo que eu não entendia.
Talvez fosse o cansaço.
Talvez fosse a vergonha.
Talvez fosse… outra coisa.
Passei os dedos pelo rosto, tentando apagar a sombra daquele momento, mas ela continuava ali, grudada em mim, como um cheiro que não se vai com banho nenhum.
E então, finalmente, saí.
A casa estava quieta, escura e fria, como se nunca tivesse sido ocupada por ninguém. Não havia sinal dele, nenhuma presença, nenhum resquício de que aquela noite havia acontecido.
Do lado de fora, o motorista já me esperava.
O ar da madrugada bateu na minha pele exposta , e um arrepio subiu pela minha espinha. Eu deveria estar me sentindo livre. Tentei sorrir um sorriso forçado para me alegrar em estar respirando um ar fresco e entrei no carro.
— Dona Luana! Boa noite, vou deixá-la em casa. Gostaria de passar em algum lugar antes?
A voz do motorista me tirou de dentro dos meus próprios pensamentos. Ele era o mesmo homem que me buscara antes, mas, naquela primeira vez, eu estava tão consumida pela ansiedade que sequer havia notado direito seu rosto. Agora, sob a iluminação suave do carro, pude vê-lo melhor.
Roberto.
Era um senhor de idade avançada, traços firmes, cabelo grisalho bem aparado e uma postura impecável. Diferente de qualquer outro motorista de aplicativo que eu já havia encontrado, ele não parecia apenas alguém prestando um serviço. Ele tinha algo mais… uma certa elegância.
— Qual o nome do senhor, desculpe-me, eu me esqueci… Na verdade, acho que nunca soube.
Ele sorriu pelo retrovisor, um sorriso cortês, mas havia algo no olhar dele que me fez sentir desconfortável. Um brilho de quem sabe mais do que deveria, ou talvez de quem já viu demais.
— Roberto, senhora. — Sua voz era firme, profissional, mas com um tom sutilmente protetor. — Espero servi-la por um bom tempo.
Servir.
A palavra me atingiu de um jeito estranho.
Ele quer que eu o sirva também?
— Total… obediência?
As palavras escaparam antes que eu pudesse contê-las. Foram um reflexo do que eu havia passado naquela noite, da submissão que me foi exigida sem concessões. Eu nem queria dizer aquilo, jamais exigiria algo assim de um trabalhador. Mas, de algum jeito, aquela frase estava presa na minha boca, como se tivesse sido impressa na minha mente de forma irreversível.
O silêncio durou apenas um segundo.
Roberto soltou uma risada baixa, quase cúmplice.
— Total obediência, madame. Como deve ser nessa casa.
O riso dele não era de deboche, mas de alguém que já sabia a resposta antes mesmo de ouvi-la.
Um calafrio subiu pela minha espinha.
Algo estava muito errado ali.
Eu queria perguntar mais, queria entender. Mas, ao mesmo tempo, senti que não deveria. Como se, ao insistir naquele assunto, eu estivesse abrindo uma porta para algo que eu talvez não fosse capaz de lidar.
Apoiei a cabeça no vidro, observando as luzes da cidade passando rápido demais.
As palavras de Roberto ecoavam na minha mente.
“Como deve ser nessa casa.”
— Senhor Roberto, seu patrão recebe muitas mulheres nessa casa?
O silêncio se estendeu por um segundo a mais do que o necessário. Vi pelo retrovisor quando ele respirou fundo antes de responder, medindo as palavras com cautela.
— Meu patrão é um empresário influente e recebe muitas pessoas, senhora.
A resposta era vaga. Genérica. Formal.
Por um instante, achei que ele estava apenas desviando do assunto, mantendo a postura de um funcionário leal e discreto. Mas então, ele continuou:
— Mas se a senhora pergunta das namoradas… acredito que um número razoável para um homem da idade e status dele. Tenho pouco acesso à sua vida privada para dizer com quantas mulheres ele se relaciona.
Havia algo na maneira como ele disse aquilo que me fez encará-lo com mais atenção. A resposta não foi tão evasiva quanto eu esperava. Pelo contrário, parecia sincera e coerente, sem rodeios ou tentativas óbvias de esconder a verdade. E, ainda assim, alguma coisa não me parecia certa.
Havia um peso nas palavras dele. Um subtexto que eu ainda não conseguia decifrar.
— O senhor trabalha há muito tempo para ele? — perguntei, testando os limites daquela conversa.
Dessa vez, Roberto sorriu de um jeito que me incomodou.
— Tempo suficiente para entender como as coisas funcionam, madame.
“Como as coisas funcionam.”
Aquelas palavras ficaram presas na minha mente como um eco.
“O que exatamente acontecia naquela casa?”
— Eu achei que a senhora iria passar a noite na casa, madame. Já havia me recolhido.
A voz de Roberto soou quase casual, mas havia algo ali. Eu não sabia o que responder. Não tinha pensado na hora de voltar. Não tinha planejado nada. Apenas queria sair dali.
Minha vontade era responder com ironia: “Quando o anfitrião me faz deitar no próprio mijo, geralmente eu tenho vontade de ir embora.”
Mas a frase ficou presa na garganta e no fim, escolhi a saída mais simples.
— Me desculpe.
Foi tudo o que disse.
Roberto apenas sorriu de leve, um sorriso curto demais para ser amigável, longo o bastante para me deixar desconfortável.
— Não há pelo que se desculpar, madame. — Ele voltou a olhar para a estrada, as mãos firmes no volante.
Mais alguns minutos se passaram em silêncio, apenas o som suave do motor preenchendo o espaço entre nós.
Quando o carro finalmente parou em frente ao meu apartamento, senti meu corpo relaxar levemente. O alívio de estar de volta ao meu próprio mundo deveria ser maior, mas tudo parecia… estranho.
Abri a porta do carro e acenei um adeus discreto para Roberto, pronta para desaparecer escada acima e me trancar no meu apartamento. Mas mal dei dois passos quando ouvi seu chamado:
— Madame!
Sua voz me fez parar, e antes que eu pudesse virar para perguntar o que era, ele já havia saído do carro.
Ele se moveu com uma agilidade incomum para alguém da sua idade, sem hesitação alguma. Contornou o carro com precisão e acionou o porta-malas, que se abriu com um clique discreto.
Fiquei parada, observando enquanto ele retirava algo de lá de dentro.
Primeiro, a cesta. Grande, delicada, repleta de produtos dispostos com um cuidado quase meticuloso. Sabonetes, hidratantes, loções — todos sem cheiro.
Depois, uma caixa.
Simples, retangular, envolta em um papel escuro e sem qualquer identificação.
Ele se aproximou e me estendeu os itens como se aquilo fosse parte de um protocolo habitual, sem necessidade de maiores explicações.
— A senhora ia esquecer seus pertences, madame.
Olhei para os objetos em suas mãos, confusa.
— A cesta ele me deu, mas essa caixa não é minha, senhor Roberto.
Ele manteve a expressão serena, sem demonstrar surpresa diante da minha hesitação.
— O patrão disse que há um bilhete.
Segurei a cesta e a caixa equilibrando os itens contra o peito, sentindo o peso do que aquilo significava sem nem ao menos saber o que havia dentro.
Sem dizer mais nada, virei-me e entrei no meu apartamento.