Capítulo 12
Havia três dias que ele tinha saído daqui de casa, depois de eu contar sobre a Tati. Tentamos transar, mas só consegui ficar irritada. Ele, em vez de se comunicar, ficou feito um moleque emburrado, coisa que eu odiava nele. Já o conhecia há anos e sabia: aquilo ia durar muito tempo ou talvez nem passasse.
Minha mãe andava preocupada comigo. Eu ouvia os cochichos dela pelos cantos com meu pai: “Acho que brigou com o amigo…”
O que doía de verdade era saber que ele ia viajar nas férias. Só voltaria depois da virada do ano — isso se não decidisse aparecer só no fim de fevereiro, no início das aulas. Eu já tinha engolido aquilo como um término, mas estava triste. Ele era meu amigo, afinal, e nem um telefonema, nem uma mensagem pra dizer: acabou.
Mas então, no terceiro dia, o morto ressuscitou.
Uma mensagem.
“Vê, não vou mais viajar com meus pais. Quer vir aqui em casa amanhã?”
Eu não sei se eu ficava feliz ou se eu xingava por ele ter me deixado três dias de molho na dúvida, então, como eu sou madura, eu fui pros fundos da casa chorar mais ainda.
No dia seguinte, acordei cedo, troquei de roupa e saí; mal tinha dormido à noite. Tentei falar com ele por mensagens para adiantar o assunto, mas ele foi bem direto, dizendo que queria conversar comigo pessoalmente. Pensei: “Fudeu, ele vai terminar comigo oficialmente!”, mas pelo menos vai ser homem de fazer isso cara a cara.
Cheguei ao condomínio dele, e estava um inferno, com tantas crianças correndo de lá para cá. Algumas pessoas pareciam entulhar os carros para as férias de fim de ano. Subi para o apartamento dele. A verdade é que eu tentava qualquer coisa para disfarçar e controlar a ansiedade, que me fazia tremer até dizer chega.
Quando a porta se abriu, lá estava ele, em pé, com aquela cara de bundinha linda que ele tinha e um sorriso de quem acabou de fazer cocô.
— Oi, Vê! Entra!
Eu entrei quieta, como quem sonda um ambiente. Quando ele fechou a porta, me deu um abraço forte que quase me esmagou — carinhoso como um elefante. Fiquei mole, me deixei ser abraçada. Aquele abraço tinha algum significado triste, fosse perdão ou fim; de qualquer forma, era triste para mim.
Ficamos assim por um tempão. Foi ele quem interrompeu, apenas para me dar uns beijos de estalinho na boca. Eu estava confusa, não entendia onde aquilo ia dar, e sentia um nó enorme no meu peito.
— Olha amor, eu queria te pedir desculpas…
— Amor? — falei alto o que deveria ser um pensamento.
Ele nunca tinha me chamado de amor antes. Que era incontestável que a gente se amava, eu sabia. Éramos amigos de longa data, víviamos juntos, eu amava aquele moleque e se não fosse recíproco ele seria o maior dos masosquistas. Mas ele nunca tinha dito que me amava, mesmo pq a gente estava juntos como namorado há não mais que um mês.
— Você me desculpa? — Ele ignorou minha pergunta e refez o pedido.
— Jão, você disse que me ama? — perguntei, ainda sem acreditar no que tinha ouvido.
— Mais ou menos…
— Porra, João! — explodi, sem conseguir segurar. — Você me deixa ferrada três dias sem contato e me diz que me ama? E como assim mais ou menos?
O silêncio que veio depois foi sufocante. Ele abaixou os olhos, envergonhado, como se não soubesse onde enfiar a cara. Eu sentia o calor subir pelo meu rosto, uma mistura de raiva e frustração, meu peito pesado com todas as perguntas que ficaram sem resposta nesses dias. Ele respirou fundo, parecia estar escolhendo as palavras a dedo, mas nada saía. Eu cruzei os braços, impaciente, esperando que ele tivesse coragem de dizer algo que fizesse sentido. Quando finalmente abriu a boca, a voz saiu baixa:
— Eu sei que fui um babaca… e você tem todo o direito de estar puta comigo.
— Ah, bom! — retruquei, sarcástica. — Pelo menos isso você sabe, né?
Ele deu um passo para frente, como se quisesse me tocar, mas hesitou. Eu fiquei parada, sem saber se queria bater nele ou chorar.
— Eu tava confuso, Vê… — disse ele, a voz quebrada. — Mas você fez uma parada que eu não gostei nem um pouco, só sou péssimo em lidar com essas coisas.
Eu dei um passo atrás, eu não podia colocar a culpa toda nele, eu havia dado motivo também.
— Tá bom cara. Vamos ficar direitinho tá? A próxima vez a gente deixa tudo conversadinho, certo?
— Sim, pode ser, seria legal, mas eu entendi seu lado. Andei pesquisando, falando com algumas pessoas, lendo umas coisas na internet e vi que eu não deveria ficar puto antes de conversar com você!
Esse era ele. Provavelmente, conhecendo bem o jeito dele, deve ter criado um milhão de teorias sobre a situação. Eu tinha certeza de que, se procurasse bem pela casa, encontraria um daqueles murais de detetive, cheio de anotações e conexões rabiscadas com fios coloridos. Ele se remoeu tanto quanto eu — talvez até pior. Sempre foi ansioso e carregou um medo constante de rejeição por causa do jeitinho peculiar dele.
— Tá, mas aquela coisa de amor? — perguntei, arqueando a sobrancelha. — Você quer dizer que me ama?
Ele hesitou, coçando a nuca.
— Er… sim…
— Awnnnnn!!! — soltei, rindo. — Eu também te amo, seu mané!
Ele revirou os olhos, tentando segurar o riso.
— Tu tem que me ofender na mesma frase que diz que me ama?
— Claro! Faz parte do pacote, querido. — Dei um soquinho leve no braço dele.
Ele sorriu, aquele sorriso meio torto que me fazia esquecer qualquer mágoa. Um abraço apertado e um coração muito mais leve.