Capítulo 4
O dia de hoje seria um inferno, eu já sabia. Era sempre assim. Valentina não calava a boca e, quando calava, era só pra guardar fôlego e reclamar ainda mais depois. Hoje era dia de ginecologista. E o pior: uma médica nova. Eu teria que abrir as pernas pra uma completa desconhecida e ainda ouvir um diagnóstico que, se Deus fosse justo, incluiria um prêmio de paciência por aturar essa boceta falante.
— Valentina, não surta, a gente vai ter que ter uma conversa.
— Conversa?! Você quer me levar nessas clínicas de aborto que tu frequenta de novo, Roberta!
Revirei os olhos enquanto pegava a bolsa e conferia se estava com todos os documentos.
— Olha, a gente precisa checar se tá tudo certo, ver se tá tudo saudável. É um check-up, coisa básica.
— Básica?! TU ME ESCANCARA NUMA MACA GELADA, ME EXIBE PRA UMA ESTRANHA E ME CUTUCA COM UNS TROÇOS METÁLICOS! ISSO NÃO É BÁSICO, ISSO É CRIME!
— Você tá exagerando.
— Exagerando? Da última vez, aquela mulher me cutucou tanto que eu achei que ia sair de lá grávida de um espéculo!
— Meu Deus você não é uma criança!
— Eu sou sim, não tem um pediatra de adultos não? Eles não mexiam em mim quando você era criança!
Suspirei, tentando manter a paciência. Peguei as chaves e saí de casa, ignorando as reclamações de Valentina, que se tivesses dedos já estaria mandando email para a Organização Mundial da Saúde.
— E essa calça justa? Tá querendo me sufocar antes da consulta?
— Para de reclamar, Valentina.
— Não dá! Tô me sentindo um presunto sendo embalado a vácuo!
Subi na moto e dei partida. O ronco do motor fez Valentina soltar um suspiro… diferente.
— Hmmm… Tá bom, eu perdoo a calça.
— Você é uma tarada.
— Quem fala sou eu, mas quem gosta é você!
O trajeto foi tranquilo, tirando os comentários indecentes dela a cada quebra-mola ou freiada.
Chegamos na clínica. Fiz meu check-in na recepção e me sentei para esperar.
— Tem gente aqui que já tá suando frio… olha aquela moça ali, segurando a bolsa como se fosse escudo!
— Cala a boca, Valentina.
— E aquela ali de perna cruzada… certeza que tá que tá com mal cheiro na xereca e cheia de corrimento. Se abrir as pernas a gente escorrega no corrimento dela.
— Meu Deus, você não tem filtro!
— E nem você tem vergonha na cara, porque me trouxe aqui sabendo que eu odeio!
O tempo passou e, finalmente, a enfermeira chamou meu nome. Respirei fundo e segui até a sala da médica.
— Oi, Roberta, pode se acomodar. Vamos começar com algumas perguntas antes do exame, tá?
— Cuidado com as perguntas, doutora. Ela mente o tempo todo!
— Cala a boca, Valentina!
A médica sorriu, sem nem imaginar o que estava acontecendo dentro da minha cabeça. Começou as perguntas básicas de rotina.
— Frequência de relações?
— Ih, doutora… ninguém quer essa daí, não!
— Queria que fosse melhor, viu, doutora — respondi, ignorando o deboche.
— Notou algum sintoma diferente?
Pensei em perguntar se era normal uma boceta que fala, mas resolvi ficar quieta. Só que Valentina não ia perder essa.
— Ô doutorazinha filha da puta, tá achando que eu tenho crecas? Tomara que a sua xana cuspa sangue nessa calça escrota branca de mau gosto que você vestiu hoje.
— Valentina, pelo amor de Deus!
Mas antes que eu pudesse brigar com ela, veio a fatídica frase:
— Agora você pode tirar a roupa da cintura pra baixo e deitar na maca.
— Ah, não… é agora que eu vou pra vala!
Tirei a calça e a calcinha, já sentindo o ar-condicionado gelado nas partes baixas. Me deitei na maca, na clássica posição humilhante.
— Pelo amor de Deus! Eu tô exposta, Roberta!
— Finge que é praia de nudismo.
— Praia de nudismo o caralho! Pelo menos lá ninguém me cutuca com um pedaço de ferro!
— Já te cutucaram com coisas piores, cala a boca!
— O pau do teu ex né?
Eu ri sozinha enquanto a médica sem entender, colocou as luvas e preparou os instrumentos.
Valentina já estava hiperventilando.
— Não, pera… isso é muito grande. Ela não vai enfiar tudo isso, né?
— É só o espéculo, relaxa!
— Relaxar? Relaxa você com isso enfiado no seu nariz pra ver como é!
Realmente aqui era horrível, ela passou um lubrificante e foi me cutucando empurrando aquilo para dentro de mim, a coisa era gelada e sempre entrava incomodando. Quando ela abria o troço, a sensação de ser aberta por dentro era muito esquisita.
— Abre a boca Valentina, Diga AAAAAAAA! — falei rindo para aliviar o meu nervoso.
— AAAAAAAA!!!!
A médica, alheia ao meu desespero interno, começou o exame. O toque gelado fez Valentina gritar dentro da minha cabeça.
— AI, MINHA NOSSA SENHORA DA PEPECAGEM!
— Para de drama!
— Isso não é drama, é sobrevivência! Essa meleca quer me arrombar, Roberta! Não dava pelo menos para esquentar esse troço?
— Tá tudo bem aí? — a médica perguntou, me olhando com uma expressão preocupada.
— Sim, doutora! Só… nervosismo!
— Tem uma versão desse pro senhor cu, Roberta? Pode ser interessante hein!
A médica devia achar que eu era doida, eu não para de rir dos comentários da Valentina.
O exame e a colheta de materiais durou poucos minutos, mas para Valentina foi uma eternidade. Quando acabou, a médica retirou o espéculo e sorriu.
— Tudo certo, sua saúde está ótima! Só aguardar os exames de laboratório.
— Se eu sobreviver até lá… — falei em voz alta sem querer. A médica só me ignorou.
Me vesti o mais rápido possível e saí da sala com um alívio imenso.
— Eu nunca mais quero passar por isso!
— Daqui a seis meses, Valentina.
— SEIS MESES?! Eu tenho que refazer isso?!
— Sim, faz parte da vida.
— Eu me recuso! Vou fundar um movimento contra exames ginecológicos! Vou criar um abaixo-assinado!
Saí da clínica rindo das ameaças de Valentina. Sim, o dia foi um inferno, mas pelo menos minha boceta tagarela estava saudável. E isso, no fim das contas, era o que importava.
— Vou ganhar um sorvetinho?
— Você quer mesmo que eu enfie sorvete em você?
— Se alguém for lamber depois, pode ser bom!
— Sua boceta safada!
— Não Roberta, SUA boceta safada!