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1003 palavras
5 minutos
Valentina na cadeira do ginecologista

Capítulo 4#

O dia de hoje seria um inferno, eu já sabia. Era sempre assim. Valentina não calava a boca e, quando calava, era só pra guardar fôlego e reclamar ainda mais depois. Hoje era dia de ginecologista. E o pior: uma médica nova. Eu teria que abrir as pernas pra uma completa desconhecida e ainda ouvir um diagnóstico que, se Deus fosse justo, incluiria um prêmio de paciência por aturar essa boceta falante.

— Valentina, não surta, a gente vai ter que ter uma conversa.

— Conversa?! Você quer me levar nessas clínicas de aborto que tu frequenta de novo, Roberta!

Revirei os olhos enquanto pegava a bolsa e conferia se estava com todos os documentos.

— Olha, a gente precisa checar se tá tudo certo, ver se tá tudo saudável. É um check-up, coisa básica.

— Básica?! TU ME ESCANCARA NUMA MACA GELADA, ME EXIBE PRA UMA ESTRANHA E ME CUTUCA COM UNS TROÇOS METÁLICOS! ISSO NÃO É BÁSICO, ISSO É CRIME!

— Você tá exagerando.

— Exagerando? Da última vez, aquela mulher me cutucou tanto que eu achei que ia sair de lá grávida de um espéculo!

— Meu Deus você não é uma criança!

— Eu sou sim, não tem um pediatra de adultos não? Eles não mexiam em mim quando você era criança!

Suspirei, tentando manter a paciência. Peguei as chaves e saí de casa, ignorando as reclamações de Valentina, que se tivesses dedos já estaria mandando email para a Organização Mundial da Saúde.

— E essa calça justa? Tá querendo me sufocar antes da consulta?

— Para de reclamar, Valentina.

— Não dá! Tô me sentindo um presunto sendo embalado a vácuo!

Subi na moto e dei partida. O ronco do motor fez Valentina soltar um suspiro… diferente.

— Hmmm… Tá bom, eu perdoo a calça.

— Você é uma tarada.

— Quem fala sou eu, mas quem gosta é você!

O trajeto foi tranquilo, tirando os comentários indecentes dela a cada quebra-mola ou freiada.

Chegamos na clínica. Fiz meu check-in na recepção e me sentei para esperar.

— Tem gente aqui que já tá suando frio… olha aquela moça ali, segurando a bolsa como se fosse escudo!

— Cala a boca, Valentina.

— E aquela ali de perna cruzada… certeza que tá que tá com mal cheiro na xereca e cheia de corrimento. Se abrir as pernas a gente escorrega no corrimento dela.

— Meu Deus, você não tem filtro!

— E nem você tem vergonha na cara, porque me trouxe aqui sabendo que eu odeio!

O tempo passou e, finalmente, a enfermeira chamou meu nome. Respirei fundo e segui até a sala da médica.

— Oi, Roberta, pode se acomodar. Vamos começar com algumas perguntas antes do exame, tá?

— Cuidado com as perguntas, doutora. Ela mente o tempo todo!

— Cala a boca, Valentina!

A médica sorriu, sem nem imaginar o que estava acontecendo dentro da minha cabeça. Começou as perguntas básicas de rotina.

— Frequência de relações?

— Ih, doutora… ninguém quer essa daí, não!

— Queria que fosse melhor, viu, doutora — respondi, ignorando o deboche.

— Notou algum sintoma diferente?

Pensei em perguntar se era normal uma boceta que fala, mas resolvi ficar quieta. Só que Valentina não ia perder essa.

— Ô doutorazinha filha da puta, tá achando que eu tenho crecas? Tomara que a sua xana cuspa sangue nessa calça escrota branca de mau gosto que você vestiu hoje.

— Valentina, pelo amor de Deus!

Mas antes que eu pudesse brigar com ela, veio a fatídica frase:

— Agora você pode tirar a roupa da cintura pra baixo e deitar na maca.

— Ah, não… é agora que eu vou pra vala!

Tirei a calça e a calcinha, já sentindo o ar-condicionado gelado nas partes baixas. Me deitei na maca, na clássica posição humilhante.

— Pelo amor de Deus! Eu tô exposta, Roberta!

— Finge que é praia de nudismo.

— Praia de nudismo o caralho! Pelo menos lá ninguém me cutuca com um pedaço de ferro!

— Já te cutucaram com coisas piores, cala a boca!

— O pau do teu ex né?

Eu ri sozinha enquanto a médica sem entender, colocou as luvas e preparou os instrumentos.

Valentina já estava hiperventilando.

— Não, pera… isso é muito grande. Ela não vai enfiar tudo isso, né?

— É só o espéculo, relaxa!

— Relaxar? Relaxa você com isso enfiado no seu nariz pra ver como é!

Realmente aqui era horrível, ela passou um lubrificante e foi me cutucando empurrando aquilo para dentro de mim, a coisa era gelada e sempre entrava incomodando. Quando ela abria o troço, a sensação de ser aberta por dentro era muito esquisita.

— Abre a boca Valentina, Diga AAAAAAAA! — falei rindo para aliviar o meu nervoso.

— AAAAAAAA!!!!

A médica, alheia ao meu desespero interno, começou o exame. O toque gelado fez Valentina gritar dentro da minha cabeça.

— AI, MINHA NOSSA SENHORA DA PEPECAGEM!

— Para de drama!

— Isso não é drama, é sobrevivência! Essa meleca quer me arrombar, Roberta! Não dava pelo menos para esquentar esse troço?

— Tá tudo bem aí? — a médica perguntou, me olhando com uma expressão preocupada.

— Sim, doutora! Só… nervosismo!

— Tem uma versão desse pro senhor cu, Roberta? Pode ser interessante hein!

A médica devia achar que eu era doida, eu não para de rir dos comentários da Valentina.

O exame e a colheta de materiais durou poucos minutos, mas para Valentina foi uma eternidade. Quando acabou, a médica retirou o espéculo e sorriu.

— Tudo certo, sua saúde está ótima! Só aguardar os exames de laboratório.

— Se eu sobreviver até lá… — falei em voz alta sem querer. A médica só me ignorou.

Me vesti o mais rápido possível e saí da sala com um alívio imenso.

— Eu nunca mais quero passar por isso!

— Daqui a seis meses, Valentina.

— SEIS MESES?! Eu tenho que refazer isso?!

— Sim, faz parte da vida.

— Eu me recuso! Vou fundar um movimento contra exames ginecológicos! Vou criar um abaixo-assinado!

Saí da clínica rindo das ameaças de Valentina. Sim, o dia foi um inferno, mas pelo menos minha boceta tagarela estava saudável. E isso, no fim das contas, era o que importava.

— Vou ganhar um sorvetinho?

— Você quer mesmo que eu enfie sorvete em você?

— Se alguém for lamber depois, pode ser bom!

— Sua boceta safada!

— Não Roberta, SUA boceta safada!

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